Sabe aqueles minerais que são o segredo por trás de praticamente tudo que usamos hoje em dia, do smartphone à turbina eólica, passando pelos carros elétricos e equipamentos de defesa? Pois é, estamos falando das terras raras – um grupo de 17 elementos químicos que, de 'raros', não têm nada em quantidade, mas sim na dificuldade de extração e processamento. E o Brasil, que tem potencial gigante, virou peça-chave em uma verdadeira corrida global por esse 'ouro do século 21'.
Essa semana, o tabuleiro mexeu forte. A notícia de um negócio de US$ 2,8 bilhões envolvendo a venda da brasileira Serra Verde para a americana USA Rare Earth acendeu os holofotes sobre o nosso país. Segundo analistas do BTG Pactual, essa transação pode ser um 'ponto de inflexão' e abrir uma 'onda de aquisições' por aqui, como mostrou o Money Times. É como se a largada de uma maratona global fosse dada, e o Brasil, de repente, se visse na linha de frente.
Por que todo mundo quer terras raras?
A briga pelas terras raras não é por acaso. Hoje, a China domina quase toda a cadeia, da mineração à fabricação. Essa concentração dá aos chineses um poder de barganha imenso, quase como ter o controle da receita de um bolo que todo mundo precisa. E, claro, ninguém gosta de depender de um único fornecedor, ainda mais quando o assunto é tecnologia e segurança nacional. Por isso, países como os Estados Unidos e seus aliados estão correndo para criar cadeias de suprimentos alternativas, incentivando investimentos e aquisições.
É aqui que o Brasil entra na jogada. A Serra Verde, com sua operação recém-iniciada em Goiás, é o único ativo de terras raras em atividade no país, e tem um projeto ambicioso para chegar a 6,5 mil toneladas de óxidos até 2027. Uma escala que, aos olhos de quem busca diversificar o fornecimento, é música para os ouvidos.
A briga 'de família': União vs. Estados
Mas, como nem tudo são flores, essa corrida global esbarrou em uma questão interna bem brasileira: quem manda no subsolo? O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Márcio Elias Rosa, foi categórico nesta sexta-feira (24): o subsolo pertence à União, e é ela quem tem a competência para regulamentar a exploração de terras raras e outros minerais críticos. Como informou o G1, o ministro classificou o memorando de entendimento entre o governo de Goiás e os Estados Unidos para a exploração de terras raras no estado como 'inconstitucional' e que 'não se sustenta'.
É como ter um terreno com um tesouro enterrado. O dono do terreno (a União) precisa dar a permissão e definir as regras para que o tesouro seja escavado. No caso de Goiás, que buscou apoio financeiro e cooperação estratégica dos EUA para o projeto Pela Ema da Serra Verde, a jogada foi vista como um 'atalho' que o governo federal não gostou. Elias Rosa enfatizou que 'o interesse nacional não pode ser gerido localmente'.
Sem estatal, com BNDES: o caminho do governo
O ministro também tratou de afastar o fantasma de uma eventual estatal para comandar a extração e o refino de terras raras. Segundo apuração da Folha, Márcio Elias Rosa foi direto: 'Não precisa de estatal para isso'. A ideia, na visão do governo, é impulsionar o setor com o que já existe, como a participação do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) nas empresas do segmento. É uma forma de ter o 'braço' do Estado no setor sem criar uma nova máquina pública, o que geralmente gera mais burocracia e, convenhamos, nem sempre é a solução mais ágil.
O que isso muda na sua vida?
A discussão sobre política mineral e geopolítica das terras raras pode parecer distante, mas as consequências práticas chegam rapidinho na sua mesa (e no seu bolso). Pense na quantidade de produtos que dependem desses elementos: celulares, TVs, computadores, carros elétricos. Se o Brasil se consolida como um grande fornecedor, podemos ter:
- Empregos e desenvolvimento local: Novas minas e plantas de processamento significam vagas para engenheiros, técnicos e mão de obra em geral, principalmente em regiões menos desenvolvidas como o interior de Goiás. É uma injeção de ânimo na economia verde e regional.
- Tecnologia mais acessível e segura: Uma cadeia de suprimentos mais diversificada tende a estabilizar os preços e garantir que os componentes cheguem ao mercado. Isso pode significar um custo menor para a sua próxima televisão ou até para a infraestrutura de internet do país.
- Posição estratégica do Brasil: Ser um player relevante no mercado de minerais críticos dá ao país um assento à mesa em discussões importantes sobre o futuro da tecnologia e da indústria global. Isso atrai mais investimento estrangeiro e fortalece a nossa economia.
O desafio agora é conciliar o apetite do mercado global com a necessidade de uma regulamentação clara e um direcionamento que beneficie o país como um todo. A 'corrida do ouro do século 21' está só começando no Brasil, e o jeito que ela será conduzida vai definir o quanto a gente, no dia a dia, vai sentir os reflexos de ser uma potência em terras raras.
Disclaimer: Este artigo tem fins informativos e não constitui recomendação de investimento. Cada investidor deve realizar sua própria análise e consultar um profissional qualificado antes de tomar qualquer decisão.