Que dia! Na contramão dos mercados internacionais e com um olho menos atento ao recém-entrado ‘tarifaço’ dos Estados Unidos, o Ibovespa registrou forte alta nesta quarta-feira (22). O principal índice da bolsa brasileira não só voltou a se aproximar dos 176 mil pontos, como também os ultrapassou com vigor, impulsionado por um nome que já conhecemos bem: Vale (VALE3). Por volta das 15h40, com o mercado ainda a todo vapor faltando pouco mais de uma hora para o fechamento, o índice mostrava ganhos expressivos de 2,01%, batendo os 176.807,27 pontos, um salto de mais de 3.481 pontos em relação ao fechamento de ontem.

Vale dá o tom em dia de tarifaço americano

A grande estrela do pregão de hoje, sem dúvidas, é a Vale (VALE3). Os papéis da gigante da mineração acumulam alta superior a 3% nesta manhã, o que, convenhamos, é um belo fôlego para um dos maiores componentes do nosso Ibovespa. Essa performance não vem do nada. A mineradora divulgou sua prévia operacional e o mercado parece ter gostado bastante do que viu, além da eleição do novo conselho de administração. Esses fatores, combinados, parecem ter agradado aos investidores, incluindo o fluxo estrangeiro, que tem dado sinais de retorno à B3 ultimamente.

É interessante observar como a força de um único ativo pode impulsionar o índice inteiro para cima. A Vale, com seus 11% de participação na carteira do Ibovespa, é um verdadeiro peso-pesado. Quando ela tem forte alta, o resto do índice tende a acompanhar. Essa dependência de poucos papéis para ditar o ritmo do Ibovespa é algo que quem acompanha o mercado brasileiro há algum tempo já viu se repetir diversas vezes. Em 2023, por exemplo, tivemos períodos em que as ações da Petrobras (PETR4) ditavam o humor do mercado; em outros, a própria Vale. O padrão se mantém.

O fato de o ETF brasileiro negociado em Nova York, o iShares MSCI Brazil (EWZ), também operar em forte alta, subindo 2,13% no mesmo horário, confirma que o otimismo local está tendo algum reflexo no exterior. Ou seja, o exterior está olhando para o Brasil com bons olhos, mesmo com o entrave das novas tarifas americanas que entraram em vigor hoje. Para se ter uma ideia, essas tarifas podem gerar uma taxa efetiva média de 18,2% sobre produtos brasileiros importados pelos EUA, um número considerável.

Fluxo estrangeiro e valuation: a dupla que impulsiona a B3 em julho

Essa recuperação do Ibovespa em julho, que já acumula uma alta modesta de 0,76% no mês até o fechamento de ontem, após uma sequência de quatro meses em baixa, tem um nome forte por trás: o retorno do investidor estrangeiro. Segundo dados até o dia 17 de julho, os gringos injetaram cerca de R$ 4,713 bilhões na bolsa brasileira. Em um único dia, 17 de julho, a entrada foi de R$ 2,362 bilhões.

Essa volta dos estrangeiros, na leitura de analistas consultados pelo Money Times, não é por uma mudança radical de cenário, mas sim por uma combinação de fatores. O primeiro deles é o chamado "preço barato". A bolsa brasileira, depois de meses em queda, apresentava valuations descontados, o que sempre atrai quem busca oportunidades. Junte a isso um juro real ainda elevado, na casa dos 8%, e a percepção de que o investidor estrangeiro nunca deixou de fato o mercado brasileiro, apenas reduziu sua exposição.

Outro ponto que ajuda é o carry trade. Com o real sustentado em torno de R$ 5,10 ante o dólar, a moeda brasileira se torna atrativa para quem busca rentabilidade através da diferença de juros, sem um risco cambial exagerado. Na minha leitura, o BC brasileiro tem trabalhado para manter essa estabilidade, o que é um fator crucial para a atração desse tipo de capital. A gente sabe que o investidor estrangeiro não investe só pelo preço, mas também pela previsibilidade, e o cenário atual, apesar dos percalços, oferece um pouco disso.

O que esperar daqui para frente?

Enquanto o Ibovespa celebra, o dólar opera próximo da estabilidade, cotado a R$ 5,0726 no momento, com leve variação percentual de 0,00%. Isso contrasta com a abertura do pregão, quando a moeda americana chegou a ensaiar uma alta, influenciada pelas tarifas americanas e tensões geopolíticas. O DXY, índice que mede o dólar contra uma cesta de moedas fortes, mostrava leve queda, indicando uma menor valorização global do dólar. O desempenho do mercado hoje demonstra que, apesar dos riscos externos, como as novas tarifas dos EUA, e as incertezas globais, como as tensões no Oriente Médio, o mercado brasileiro tem catalisadores próprios poderosos. A força da Vale, o retorno do fluxo estrangeiro e a atratividade dos valuations, tudo isso pode criar um ambiente favorável para a bolsa, mesmo quando as nuvens parecem se adensar lá fora. Para o investidor, é um lembrete de que o mercado é feito de muitas variáveis, e o que dita o ritmo de um dia pode ser bem diferente do que se espera.