O Ibovespa reencontrou o caminho dos 170 mil pontos nesta segunda-feira (22), fechando em alta de 1,21%, cotado a 170.370,38 pontos. O movimento foi impulsionado por um alívio no cenário geopolítico, com avanços nas conversas entre Estados Unidos e Irã, o que reacendeu o apetite por risco em mercados globais e atraiu fluxo estrangeiro para a bolsa brasileira. Quem acompanha o mercado há algum tempo percebe que esse tipo de cenário, com aversão ao risco global diminuindo, historicamente favorece ativos emergentes como os nossos, pois o investidor estrangeiro busca retornos maiores em economias com maior potencial de crescimento.
O dólar à vista, por sua vez, encerrou o dia em baixa de 0,45%, negociado a R$ 5,1415. A queda da moeda americana foi atenuada por leilões de liquidez promovidos pelo Banco Central (BC). O BC realizou operações de venda de US$ 1 bilhão em moeda à vista e outros US$ 1 bilhão em swap cambial reverso, conhecidas no mercado como "casadão", com o objetivo de trazer mais tranquilidade e liquidez ao câmbio.
Essa combinação de fatores — melhora no humor internacional e intervenções do BC — criou um ambiente favorável para a bolsa. Ações de peso, especialmente do setor financeiro, como Itaú Unibanco e BTG Pactual, apresentaram forte valorização e sustentaram o desempenho positivo do índice. O volume financeiro do dia somou R$ 23,8 bilhões, indicando uma atividade considerável no mercado.
No cenário doméstico, porém, as nuvens parecem não se dissipar tão rapidamente. O Boletim Focus desta semana trouxe mais uma revisão para cima nas projeções de inflação para 2026, que agora soma 5,33% para o IPCA. As expectativas para a taxa Selic também foram ajustadas para cima, com a mediana para 2026 chegando a 14%. Esse cenário de juros mais altos por mais tempo pode ser um empecilho para o otimismo no longo prazo, mesmo com o fluxo estrangeiro de curto prazo.
Na minha leitura, o mercado brasileiro, apesar de ter se beneficiado do fluxo estrangeiro hoje, continua sendo precificado com um certo desconto. Relatórios recentes, como o do Citi, apontam que a bolsa brasileira negocia a um múltiplo P/L forward de 8,4x, um dos maiores descontos frente a mercados desenvolvidos nos últimos anos. A saída de capital estrangeiro observada desde meados de abril, que reduziu o saldo acumulado do ano para cerca de R$ 37 bilhões, mostra que o investimento em inteligência artificial, que tem atraído muitos recursos para mercados asiáticos, tem deixado o Brasil um pouco para trás em termos de atratividade tecnológica.
É interessante notar que, enquanto o fluxo estrangeiro busca outros mercados, nossos ativos de infraestrutura, como a Rumo S.A. (RAIL3), mostram resiliência em seus preços, apesar de uma performance negativa no acumulado do ano. A ação fechou o dia com alta de 0,97%, mas acumula uma queda de mais de 15% em 2026. Isso me faz pensar se não há uma oportunidade de longo prazo para investidores que buscam ativos com bom fundamento e que podem se beneficiar de um eventual cenário de juros mais controlados no futuro, sem depender tanto do "hype" tecnológico.
Acompanhamos esse movimento de reavaliação da bolsa brasileira desde nossas matérias anteriores, onde já sinalizávamos um "compasso de espera" e a influência de fatores como o dólar e os juros. A sessão de hoje trouxe um respiro, mas os dados de inflação e as projeções para a Selic continuam sendo pontos cruciais a serem monitorados nas próximas semanas.
Disclaimer: Este artigo tem fins informativos e não constitui recomendação de investimento. Cada investidor deve realizar sua própria análise e consultar um profissional qualificado antes de tomar qualquer decisão.