A quarta-feira no mercado de commodities foi daquelas que mostra como o mundo está sempre em movimento, mesmo depois que as bolsas fecham. Do metal precioso que serve de porto seguro ao combustível que abastece nossos carros, passando pelas nuvens que prometem chuva ou seca para nossas lavouras, o dia trouxe sinais bem distintos para a economia brasileira e a carteira do investidor.

O ouro volta a brilhar com a calmaria (temporária) no Oriente Médio

Se tem uma coisa que investidor gosta de ter por perto quando o cenário global fica meio nebuloso, é o ouro. E o metal precioso fez jus à sua fama de porto seguro nesta quarta-feira, fechando em alta. Na Comex, o ouro para junho avançou 0,71%, voltando a se aproximar da casa dos US$ 5 mil por onça-troy, um patamar que não víamos há um bom tempo. Em termos práticos, é como se ele dissesse: “estou aqui para proteger seu patrimônio”.

O que fez o ouro reluzir mais forte? A notícia do prolongamento do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã foi o principal catalisador. Embora as informações sobre a duração e as próximas negociações ainda estejam um tanto desencontradas – o presidente Trump falou em “boas notícias” para sexta-feira, mas o Irã nega intenção de negociar já, e fontes da Casa Branca apontam para um acordo de 3 a 5 dias – a percepção de uma desescalada, ainda que provisória, sempre acalma os ânimos e impulsiona ativos considerados mais seguros.

Para o investidor brasileiro, o preço do ouro, muitas vezes negociado em dólar, também reflete a taxa de câmbio. Ou seja, se o dólar sobe, mesmo com o ouro estável lá fora, ele fica mais caro por aqui. É um jogo de duas variáveis que merece atenção para quem busca diversificação ou proteção em momentos de instabilidade.

Etanol: Preço derrapa feio com excesso de oferta

Enquanto o ouro festejava, o etanol teve um dia de cão. Ou, melhor dizendo, uma semana de cão, já que os dados do Cepea/Esalq, apurados entre 13 e 17 de abril, mostraram uma queda de mais de 7% nos preços do etanol hidratado e anidro no mercado spot de São Paulo. Para ser mais exato, o hidratado fechou a R$ 2,5920/litro e o anidro a R$ 2,9575/litro – o anidro não ficava abaixo dos R$ 3,00 desde agosto do ano passado. Essa é uma notícia que impacta diretamente o bolso do consumidor na bomba, mas também a margem das usinas.

A explicação para essa derrapada é um clássico do mercado: a oferta superou a demanda. Segundo pesquisadores do Cepea, várias unidades produtoras começaram suas operações, jogando mais produto no mercado. Do outro lado, as distribuidoras, sabendo da maior oferta, resolveram segurar as pontas, postergando ao máximo suas compras e negociando apenas volumes pequenos. É como chegar em uma festa com um monte de comida e bebida, mas poucos convidados com fome. O resultado? Os preços caem.

As incertezas, tanto internas quanto externas, também contribuem para essa postura mais conservadora dos compradores. Para o investidor ligado ao agronegócio e ao setor sucroenergético, é um sinal de alerta sobre a volatilidade dos preços e a importância de ficar de olho nos custos de produção e na capacidade de escoamento.

El Niño vem aí? O agronegócio já se prepara para a montanha-russa climática

E falando em incertezas, o clima é sempre um fator de peso para o agronegócio brasileiro. E a notícia que ecoou hoje é que o “Super El Niño” está no radar, prometendo chacoalhar o comportamento climático nos próximos meses. Depois de um período de neutralidade climática pós-La Niña, a NOAA (Agência Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA) aponta para 61% de chances de o El Niño se estabelecer entre maio e julho, com especialistas já prevendo uma forte intensidade no segundo semestre.

Para o agronegócio, isso não é brincadeira. O El Niño tradicionalmente redistribui as chuvas, e as consequências podem ser uma montanha-russa: o Sul do país pode ter volumes acima da média, o que é bom para algumas culturas, mas também aumenta o risco de enchentes e dificuldades no campo. Já no Centro-Oeste e no Norte, regiões cruciais para a produção de grãos, o cenário tende a ser de maior irregularidade, com períodos de estiagem capazes de comprometer as lavouras. É uma previsão que faz qualquer planejador rural suar frio, e que pode mexer bastante com os resultados das empresas do setor, como bem destacou Desirée Brandt, meteorologista da Nottus.

Lula defende biocombustíveis e a política agrícola brasileira

No meio de tudo isso, o presidente Lula aproveitou sua viagem à Alemanha para sair em defesa da política agrícola brasileira, especificamente no que tange aos biocombustíveis. Ele classificou como “mito” a ideia de que a produção de biocombustíveis compete com a produção de alimentos no Brasil, convidando empresários alemães a verem a realidade de perto.

É uma declaração que tenta reforçar a imagem do Brasil como uma potência agrícola capaz de conciliar produção de energia limpa e segurança alimentar. Para o setor de etanol, por exemplo, o apoio governamental e a desmistificação de certas narrativas são cruciais para atrair investimentos e garantir um crescimento sustentável, ainda mais em um cenário de preços pressionados como o que vimos.

Onde o investidor se encaixa nessa história?

Olhando o resumo do dia, fica claro que o mercado de commodities é um organismo vivo, sensível a movimentos geopolíticos, climáticos e até mesmo a discursos políticos. O fechamento desta quarta-feira nos mostrou a resiliência do ouro como ativo de proteção, a sensibilidade do etanol à dinâmica de oferta e demanda, e a sombra do El Niño sobre as safras futuras. Para o investidor, entender essas forças é fundamental para ajustar a bússera de sua carteira, seja buscando oportunidades na volatilidade ou se protegendo dos riscos inerentes a cada setor. A decisão final, claro, é sempre sua.