As ações de tecnologia voltaram a sentir o peso da aversão ao risco em Wall Street, e o mercado brasileiro, que não vive em uma bolha isolada, acompanha essa movimentação. Após dois dias consecutivos de vendas mais fortes em Nova York, especialmente no setor de semicondutores, os investidores agora param para respirar e aguardam novos catalisadores. A grande estrela do dia – ou, dependendo do resultado, a vilã – é o balanço trimestral da Micron Technology, gigante fabricante de chips. As expectativas são altas para que seus números ofereçam pistas sobre a força da demanda por inteligência artificial (IA) e se o atual ciclo de crescimento do setor é sustentável.

Quem acompanha o mercado de tecnologia há algum tempo, percebe que esse tipo de volatilidade não é novidade. Lembra quando aNasdaq passou por turbulências similares em 2020, durante a pandemia? A euforia inicial com o potencial da tecnologia e da IA levou a valorizações expressivas, e agora, à medida que os balanços e a realidade dos lucros batem à porta, os investidores fazem contas e reavaliam os riscos. O caso da própria Micron é emblemático: suas ações acumulam uma alta superior a 250% nos últimos 12 meses, mas na véspera, sofreram uma queda de cerca de 13%. É o famoso ciclo de "compra na expectativa, vende no fato", que mexe com os preços de forma bastante intensa.

Na minha leitura, o mercado está em um ponto de inflexão tático. A tese estrutural da inteligência artificial continua firme, é claro. As empresas que desenvolvem e aplicam IA devem, a longo prazo, se beneficiar enormemente. O problema, para mim, é que muitos investidores entraram nesse barco com a expectativa de retornos rápidos e exponenciais, e agora, com a precificação desses ativos já refletindo projeções futuras bem otimistas, qualquer sinal de desaceleração ou incerteza é suficiente para gerar vendas em cascata. Esse movimento é mais sobre o "timing" e a "avaliação" do que sobre a qualidade intrínseca das empresas de tecnologia.

No cenário brasileiro, o Ibovespa opera em um ritmo mais contido nesta quarta-feira (24). Embora o dia anterior tenha fechado com leve alta, o ETF brasileiro negociado em Nova York, o iShares MSCI Brazil (EWZ), mostra uma leve queda no pré-market. A força do dólar também é um ponto de atenção. Com a conjuntura global de juros em países desenvolvidos e incertezas macroeconômicas, o real brasileiro segue sensível. Para quem investe no mercado doméstico, a volatilidade das ações de tecnologia lá fora pode se traduzir em cautela, especialmente em setores mais sensíveis ao fluxo de capital internacional.

A disseminação do uso intensivo de inteligência artificial em empresas da zona do euro, por exemplo, ainda é considerada rara, segundo pesquisadores do BCE. Apenas uma pequena fração de companhias, majoritariamente pequenas e voltadas para serviços, utilizam a tecnologia de forma mais profunda. Isso mostra que, apesar do burburinho e das valorizações exuberantes em alguns mercados, a adoção e os impactos econômicos reais da IA ainda estão em estágios iniciais em muitas regiões. É um lembrete de que o hype é poderoso, mas os fundamentos levam tempo para se consolidar.

Para o investidor, o que muda no seu bolso ou portfólio com tudo isso? A volatilidade no setor de tecnologia, que representa uma fatia significativa das bolsas globais, exige cautela. Se você tem exposição a fundos que acompanham índices como o Nasdaq, ou mesmo fundos de ações brasileiros com forte componente de empresas de tecnologia ou ligadas a elas, espere mais oscilações. A minha sugestão é sempre olhar para o longo prazo e para a diversificação. Não é o momento de tomar decisões precipitadas, mas sim de reavaliar o peso desses ativos na carteira e, quem sabe, buscar oportunidades em setores menos voláteis ou que se beneficiem de um cenário de aversão ao risco, como alguns segmentos da renda fixa ou debêntures com bom retorno.

O que monitorar daqui para frente? Obviamente, o balanço da Micron é o principal evento. Mas além disso, atenção aos próximos números de inflação e decisões de política monetária nos Estados Unidos e na Europa. Qualquer sinal de aperto adicional ou a manutenção de juros altos por mais tempo pode intensificar a busca por segurança e derrubar ainda mais as ações de crescimento. No Brasil, acompanharemos o desenrolar das decisões internas e, claro, o comportamento do nosso eterno amigo e inimigo, o dólar.