A Intenção de Consumo das Famílias (ICF) sinaliza uma leve melhora na confiança dos brasileiros. Em julho, o índice registrou um avanço de 0,1%, marcando o nono mês consecutivo de alta desde novembro de 2025. O índice reflete um otimismo crescente, especialmente impulsionado pela maior expectativa de consumo, que subiu 1,1%. Parece que a melhora percebida em indicadores econômicos está começando a proporcionar um alívio para o bolso do consumidor.

Um alívio com ressalvas

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), responsável pela pesquisa, aponta que a alta da ICF é resultado da melhora de diversos componentes. A continuidade da redução da taxa Selic e a inflação sob controle — pelo menos até o momento em que a pesquisa foi realizada — são fatores cruciais para essa percepção. Para quem faz as contas no final do mês, ver a inflação dar uma trégua e os juros do crédito cederem um pouco já faz diferença na hora de planejar as compras, seja de um eletrodoméstico, uma roupa nova ou até mesmo um serviço.

No entanto, é impossível ignorar que a conjuntura global lança uma névoa sobre esse otimismo cauteloso. A manutenção das taxas de juros pelo Banco Central Europeu (BCE) em 2,25% na taxa de depósito, por exemplo, serve como um lembrete de que a economia mundial ainda patina. O BCE, que também manteve inalteradas as outras taxas de juros de referência, sinalizou que monitora de perto o conflito no Oriente Médio e seus reflexos no preço do petróleo. Essa instabilidade no barril, que já pressionou a inflação brasileira em outros momentos, pode complicar o cenário para nós aqui, aumentando custos de importação e, consequentemente, o preço de diversos produtos.

Reserva internacional em foco, juros na Europa espiam o Brasil

Enquanto o consumidor tenta vislumbrar um futuro mais próspero, o Congresso Nacional discute nuances da política monetária e de gestão de ativos. A PEC que busca conferir autonomia ao Banco Central para gerir as reservas internacionais do país, por exemplo, é um movimento que visa blindar a política econômica de interferências políticas de curto prazo. Na minha leitura, o Planalto quer dar um sinal de maturidade institucional, permitindo que o BC tenha mais liberdade para lidar com o complexo cenário financeiro global. Essa autonomia, em tese, poderia levar a decisões mais técnicas e menos suscetíveis a pressões políticas, o que, em um cenário internacional volátil, é um recurso valioso.

A decisão do BCE de manter os juros, apesar da inflação na Zona do Euro ter caído para 2,8% em junho, demonstra a cautela das autoridades monetárias em todo o mundo. O objetivo é claro: assegurar que a inflação se estabilize em torno da meta de 2% a médio prazo. Essa postura, embora necessária para a saúde econômica da Europa, pode ter implicações para o Brasil. Taxas de juros mais altas na Europa tendem a atrair capital estrangeiro para o continente, o que pode diminuir o fluxo de investimentos para mercados emergentes como o nosso. Além disso, um petróleo mais caro, reflexo direto da instabilidade geopolítica, alimenta a inflação global e pode forçar o Banco Central do Brasil a rever seus próprios cortes na Selic, esfriando o ímpeto do consumo que recém começou a dar sinais de vida.

O que o cenário internacional reserva para o seu bolso?

Para o cidadão comum, a tensão entre a melhora do consumo interno e os ventos contrários vindos de fora se traduz em um cenário de cautela. Se a alta do petróleo se intensificar, podemos esperar um aumento nos combustíveis, gás de cozinha e também nos preços de produtos que dependem de transporte. Isso, por sua vez, pode reverter o quadro positivo da inflação e fazer com que o ganho na intenção de consumo se perca rapidamente. Quem acompanhou a economia nos últimos anos sabe que o preço do barril do petróleo é um dos termômetros mais sensíveis e com impacto direto no dia a dia, desde o deslocamento para o trabalho até a cesta básica. Essa é a velha dialética da economia: enquanto aqui dentro tentamos ajustar as velas, lá fora as tempestades podem nos desviar do curso.

A persistência da alta na intenção de consumo, mesmo com as incertezas globais, é um dado que merece atenção. A Perspectiva Profissional, por outro lado, caiu 1,3%, o que indica que a confiança no mercado de trabalho e na própria situação profissional ainda não acompanha o ritmo da expectativa de consumo. Esse descompasso é um ponto de atenção para os formuladores de política econômica. A tendência é que, se o cenário internacional se estabilizar e o petróleo recuar, a confiança no mercado de trabalho possa se fortalecer. Contudo, se as tensões geopolíticas se agravarem, a cautela poderá se instalar novamente, freando não só os investimentos, mas também o consumo, o que invariavelmente afeta empregos e a renda das famílias.