O apito final que selou a pior campanha do Brasil em Copas do Mundo desde 1990 não ecoou apenas nos gramados do Texas. No Brasil, o amargo jejum de 28 anos sem um título mundial — que se estenderá até 2030 — provocou uma reação imediata e reveladora nas redes sociais. Grupos de WhatsApp e outras plataformas fervilharam com uma pergunta antiga: quem carrega a culpa por mais essa frustração?

A derrota para a Noruega, com um pênalti perdido no primeiro tempo e dois gols de Haaland nos minutos finais, acirrou a busca por um bode expiatório. A análise dos dados extraídos dessas conversas mostra uma nítida hierarquia de culpados, onde as pessoas, impulsionadas pela frustração, apontavam dedos. É um padrão que quem acompanha Brasília há anos reconhece em outros cenários: quando o resultado é ruim, a pressão por explicações e punições aumenta.

A Polarização da Culpa: Neymar e os Holofotes

O nome de Neymar, novamente, surge no centro da tempestade. Enquanto alguns lamentam seus erros e a performance abaixo do esperado, outros o defendem veementemente, vendo nele uma vítima de perseguições. Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal, ecoou essa corrente ao acusar a TV Globo de “Neymarfobia” e “Bolsonarofobia mascarada” em uma publicação no Instagram. Segundo ele, a emissora estaria tentando emplacar rótulos negativos contra o jogador, ignorando seu carisma popular.

Essa leitura, para mim, reflete uma estratégia recorrente na política brasileira: usar eventos populares para reforçar narrativas e divisões. Ao associar a crítica a Neymar à crítica a Bolsonaro, o discurso busca se beneficiar da polarização que tanto marca o país. Não é a primeira vez que vemos figuras políticas tentarem instrumentalizar o esporte para seus próprios fins.

Racismo no Esporte: A Luta Continua

Enquanto a torcida brasileira digeria a derrota, um outro debate, mais grave e global, ganhava contornos. Kylian Mbappé, craque da seleção francesa, reagiu publicamente a ataques racistas proferidos pela senadora paraguaia Celeste Amarilla. Em uma publicação no X, o atacante rebateu as comparações com chimpanzés feitas pela parlamentar, afirmando que ela era “indigna de sua função” e “propaga ódio e racismo”.

Esse episódio traz à tona uma dura realidade: o racismo no esporte ainda é um problema persistente. A velocidade com que esse tipo de discurso de ódio se espalha pelas redes sociais é alarmante e demonstra a urgência de políticas mais eficazes de combate. A FIFA e outras entidades têm intensificado campanhas, mas a raiz do problema, muitas vezes, reside na educação e na tolerância zero que ainda precisa ser plenamente consolidada.

O caso de Mbappé, inclusive, relembra outras situações que cobrimos. Em 2021, vimos diversas manifestações racistas no futebol europeu, com jogadores sendo alvo de injúrias. A resposta firme do francês, no entanto, envia uma mensagem poderosa: não há espaço para esse tipo de comportamento, especialmente vindo de figuras públicas que deveriam zelar pela ética e pelo respeito.

As Consequências no Bolso e na Vida do Cidadão

Mas como tudo isso afeta a vida do brasileiro comum, além da paixão pelo futebol? A frustração coletiva pela eliminação na Copa pode ter um impacto indireto na economia. Pesquisas que acompanhamos mostram que, em momentos de decepção esportiva, o consumo tende a cair, e o humor social pode pesar no bolso. Por exemplo, imagine que um brasileiro planeje uma celebração que não acontece, ou que seu consumo se retraia. Isso reflete no varejo, nos serviços, em toda a cadeia produtiva.

Além disso, a polarização política que se manifesta nas discussões sobre futebol pode contaminar ainda mais o ambiente político. Quando opiniões sobre esporte se tornam bandeiras ideológicas, a capacidade de diálogo e a busca por consensos em pautas importantes para o país – como a economia, a saúde ou a segurança – ficam comprometidas. Essa dificuldade em unir esforços é algo que se sente diretamente na qualidade dos serviços públicos e na agilidade com que problemas nacionais são solucionados.

O Fio da Navalha entre Esporte e Política

A Copa do Mundo de 2026, com sua combinação de glórias e decepções, serviu mais uma vez como um espelho da sociedade brasileira. A busca por culpados após uma derrota, o debate acalorado sobre figuras públicas e a triste recorrência do racismo no esporte são reflexos de questões profundas. Na minha leitura, o esporte, com seu poder de mobilização, acaba sendo palco para outras tensões sociais e políticas.

A Espanha, por exemplo, que venceu Portugal por 1 a 0 nas oitavas de final, demonstra uma abordagem diferente, onde o foco parece estar mais na estratégia e no desempenho. Essa postura, de uma certa forma, contrasta com a intensidade emocional que a derrota brasileira gerou, onde a busca por um responsável se sobrepõe à análise serena do ocorrido. O futebol é paixão, mas quando essa paixão se transforma em fúria desenfreada, ela pode obscurecer tanto o entendimento do jogo quanto a capacidade de construir um futuro melhor, tanto nos gramados quanto fora deles.