A reta final para as eleições de 2026 começa a desenhar cenários complexos no Brasil, e nem tudo está livre de polêmica e de ecos de pleitos passados. Enquanto partidos se articulam para definir candidaturas e estratégias, um caso que remonta a 2022 ainda pende na esfera judicial, lançando uma sombra sobre o processo eleitoral que se aproxima. A demora na resolução de questões controversas é um prato cheio para especulações e pode influenciar o humor do eleitorado.

Mensagens de 2022: Um processo judicial em compasso de espera

No Paraná, um episódio peculiar da campanha de 2022 envolvendo o envio de 325 mil mensagens via SMS a eleitores, em apoio ao então presidente Jair Bolsonaro, ainda não encontrou um desfecho judicial. As mensagens, enviadas em dias que antecederam o primeiro turno daquele ano, continham teor antidemocrático e prometiam protestos caso Bolsonaro não fosse eleito no primeiro turno. O detalhe que agrava a situação é que os disparos teriam partido de um número oficial do Governo do Paraná, utilizado para comunicações de serviços públicos, como atendimentos no Detran. A estatal Celepar, responsável pela área de TI do governo paranaense, negou a autoria, mas a investigação parece ter esbarrado em complexidades tecnológicas e, possivelmente, políticas. A falta de uma conclusão para esse caso, a menos de três meses de uma nova eleição, é um sinal de alerta. Quem acompanha o Congresso há tempo sabe que a lentidão em processos que envolvem disputas eleitorais pode gerar narrativas de impunidade ou de perseguição, dependendo do lado que se olha. Esse tipo de pendência, quando não resolvida, tende a ser usada como arma em campanhas e a alimentar um clima de desconfiança no processo democrático.

Estratégias regionais em busca de espaço nacional

Enquanto o judiciário caminha em seu ritmo, a política partidária está a todo vapor. No Rio de Janeiro, o PL oficializou a candidatura do deputado estadual Douglas Ruas ao governo do estado. A confirmação, no entanto, veio com a ausência de definições cruciais, como a de um candidato a vice e a chapa completa para o Senado. As falas de Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro, por telefone, durante a convenção do partido, reforçaram a conexão com a família Bolsonaro. Flávio, em sua participação, fez duras críticas à gestão atual e pintou um cenário sombrio para o estado, falando em "narcoterroristas" e "projeto de poder". Michelle, por sua vez, transmitiu uma mensagem de Jair Bolsonaro, pedindo para que os correligionários não desistissem. Essa articulação, mesmo à distância, sinaliza a importância do Rio de Janeiro no tabuleiro político e a intenção do PL de se consolidar como oposição forte no estado, buscando capitalizar em cima de pautas de segurança e ordem. A estratégia, na minha leitura, é preparar o terreno para futuras disputas nacionais, utilizando os palanques regionais como plataforma de ascensão.

Em Santa Catarina, estado conhecido por seu forte eleitorado conservador, o candidato de Lula ao governo, o ex-deputado e empresário Gelson Merísio (PSB), aposta em uma trajetória de centro para conquistar votos. A estratégia é dividida em duas etapas: no primeiro turno, Merísio pretende grudar sua imagem à do presidente Lula, aproveitando o capital político do petista no estado, estimado entre 25% e 30% dos votos. A expectativa é que essa aproximação garanta sua presença em um eventual segundo turno. A partir daí, a ideia é explorar a divisão no campo ideológico oposto, que conta com duas candidaturas alinhadas a Bolsonaro – a do atual governador, Jorginho Mello (PL), e a de um ex-prefeito. Essa tática de "costurar" votos no centro e explorar a fragmentação da direita não é nova, e já vimos movimentos semelhantes em outros estados com forte vocação de oposição a governos petistas. O desafio de Merísio será convencer um eleitorado que, historicamente, demonstra afinidade com discursos mais à direita, sem alienar a base lulista.

A arte de receber com diplomacia e alinhamento ideológico

Ainda no cenário de articulações e alinhamentos, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), demonstrou uma abordagem diplomática e alinhada ideologicamente ao planejar a recepção ao presidente da Argentina, Javier Milei. A ideia é receber o líder argentino com um tapete azul, em vez do tradicional vermelho, no Palácio dos Bandeirantes. Essa escolha simbólica reflete a sintonia entre os dois governantes, ambos com discursos liberais e críticos ao que chamam de "esquerdismo". Milei tem sido uma referência para setores da direita brasileira, e Tarcísio busca capitalizar essa admiração, fortalecendo sua própria imagem como um líder de centro-direita alinhado a tendências internacionais. Esse tipo de gesto, embora pareça pequeno, funciona como uma poderosa mensagem política, sinalizando apoio e proximidade em um momento de forte polarização ideológica. Não é a primeira vez que governadores utilizam a imagem de líderes estrangeiros para reforçar suas próprias plataformas políticas; em 2023, vimos algo parecido com a aproximação de alguns políticos brasileiros com figuras de outros países que representavam bandeiras semelhantes.

O cenário eleitoral para 2026, portanto, se desenha com múltiplos focos: a pendência judicial no Paraná, as estratégias regionais de partidos como o PL e a movimentação em torno de figuras como Lula e Bolsonaro, e as demonstrações de alinhamento ideológico entre líderes. As próximas semanas serão cruciais para o desenrolar dessas políticas, com consequências diretas para o futuro do Brasil.