Em meio às crescentes tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, uma nova pesquisa divulgada nesta quinta-feira (16) lança luz sobre a percepção pública a respeito do recente tarifaço imposto por Washington sobre produtos brasileiros. Segundo levantamento da Genial/Quaest, a maioria dos brasileiros atribui a culpa pela medida ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em detrimento do presidente Lula (PT).
A sondagem, que ouviu 2.004 eleitores entre os dias 10 e 13 de julho, revela um cenário onde 51% dos entrevistados concordam mais com a versão do presidente Lula de que Flávio Bolsonaro teria apoiado as novas tarifas com o intuito de prejudicar o governo federal. Apenas 30% acreditam na tese do senador, que nega qualquer envolvimento e afirma ter solicitado ao ex-presidente Donald Trump a não imposição dessas taxas ao Brasil.
Percepção Pública em Meio a Choques Externos
O resultado da pesquisa Genial/Quaest acende um alerta para a campanha do senador Flávio Bolsonaro, que tem buscado se posicionar como uma voz influente nas relações internacionais, especialmente junto a um eventual retorno de Donald Trump à Casa Branca. No entanto, a imagem que prevalece entre o eleitorado é a de que o parlamentar carece da força necessária para reverter decisões americanas. Outros dados do mesmo instituto reforçam essa visão: 58% dos brasileiros consideram que Flávio Bolsonaro não tem poder de persuasão suficiente para convencer o presidente dos EUA a reconsiderar as tarifas. Apenas 34% avaliam positivamente essa capacidade do senador.
Na minha leitura, esse cenário reflete uma dificuldade persistente de parte da oposição em construir narrativas que transcendam a polarização. Enquanto a campanha bolsonarista busca atrelar questões econômicas internacionais a desgastes do governo atual, o eleitorado parece, em parte, atribuir responsabilidades mais diretas a quem se apresenta como alternativa, mas que ainda não consolidou essa percepção de influência externa.
É um movimento que já vimos em outros momentos: quando o cenário econômico externo se complica, a opinião pública tende a buscar um responsável mais palpável, e quem está em posição de protagonismo na oposição acaba sendo o alvo mais fácil, ainda que a atuação do governo seja crucial para mitigar os efeitos.
Governo Lula Colhe Frutos de Programas Econômicos
Em contraste com a percepção sobre Flávio Bolsonaro, a pesquisa Genial/Quaest também aponta uma melhora na aprovação do governo Lula. Dados divulgados na quarta-feira (15) indicam que 48% dos brasileiros aprovam a gestão federal, o melhor resultado para o presidente desde o final de 2024. Esse percentual supera numericamente a desaprovação, que se situa em 47%. O índice de aprovação vem em uma trajetória ascendente desde abril, acumulando um crescimento de cinco pontos percentuais.
O diretor da Quaest e professor da FGV, Felipe Nunes, atribui essa recuperação à eficácia de programas voltados à economia popular. Iniciativas como o Desenrola, que visa a renegociação de dívidas, e as discussões em torno da escala de trabalho 6x1, que promete melhorar as condições de trabalho, parecem estar ressoando positivamente junto a um segmento específico do eleitorado. Esse tipo de ação direta no bolso do cidadão, seja pela redução de endividamento ou pela perspectiva de melhores salários, tende a ter um impacto mais imediato na avaliação do governo do que debates mais abstratos sobre política externa.
A estratégia do Planalto de focar em medidas que aliviem o custo de vida e facilitem o acesso ao crédito, como o Desenrola, funciona como um antídoto direto contra o descontentamento popular. Em tempos de inflação persistente e juros elevados, programas que oferecem um alívio tangível, mesmo que para um grupo específico, acabam fortalecendo a base de apoio do governo. Quem acompanha Brasília sabe que, quando a economia dá sinais de melhora para o cidadão comum, a aprovação presidencial tende a subir, e o governo parece ter encontrado nessa linha um caminho para consolidar sua imagem.
Ataques à Legitimidade de Pesquisas
Enquanto os números da Genial/Quaest são divulgados, a campanha de Flávio Bolsonaro demonstra apreensão com levantamentos que não lhe são favoráveis. Na última terça-feira (15), a pr�campanha do senador protocolou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um novo questionamento sobre uma pesquisa da AtlasIntel. A argumentação central reside na suposta ausência de dados estatísticos obrigatórios, como a identificação dos municípios pesquisados e a composição da amostra por gênero e idade.
Essa não é a primeira vez que a equipe de Flávio Bolsonaro tenta desqualificar pesquisas. Em maio, um pedido semelhante levou à suspensão de um levantamento Atlas/Bloomberg que apontava vantagem de Lula. O ministro Kassio Nunes Marques, presidente do TSE na ocasião, atendeu ao pedido do senador. A repetição dessa estratégia, de questionar a metodologia e a legalidade das pesquisas, é um padrão observado quando os resultados não corroboram o discurso da campanha. É uma forma de minar a credibilidade dos dados antes mesmo que eles impactem a opinião pública de forma mais ampla, tentando antecipar a narrativa em caso de resultados desfavoráveis.
A movimentação jurídica para contestar pesquisas é um elemento recorrente no cenário político brasileiro, especialmente em anos eleitorais. A defesa, ao ver resultados que não lhe interessam, busca brechas legais para contestar a validade dos levantamentos. Isso, por um lado, exige maior rigor dos institutos de pesquisa e, por outro, pode gerar um clima de desconfiança sobre a própria informação que está sendo veiculada. Para o cidadão, isso significa ter que filtrar ainda mais o que lê e ouve, distinguindo fatos de estratégias de campanha.
Disclaimer: Este artigo tem fins informativos e não constitui recomendação de investimento. Cada investidor deve realizar sua própria análise e consultar um profissional qualificado antes de tomar qualquer decisão.