O final de semana trouxe, como de praxe em anos eleitorais, sinais claros das intenções de diversos atores políticos que buscam se consolidar no cenário para 2026. Em São Paulo, o pré-candidato à Presidência pelo Novo, Romeu Zema, agitou os apoiadores ao prometer a privatização da Petrobras e do Banco do Brasil. A proposta, que já foi defendida por outros espectros políticos mais liberais, ganha força na voz de Zema como um trunfo para alavancar sua candidatura, focando na liberação de recursos para investimentos em infraestrutura. Na minha leitura, o Planalto tentará pintar essa proposta como um ataque ao patrimônio público, buscando explorar a veia mais nacionalista de parte do eleitorado. A jogada é ousada e, se concretizada, certamente mudará o perfil de gigantes estatais que moldam a economia brasileira há décadas.

Aposta na infraestrutura e críticas ao atual governo

Romeu Zema não economizou nas críticas ao governo Lula durante seu discurso no 10º Encontro Nacional do Partido Novo. Para ele, o Brasil "não aguenta mais quatro anos de Lula", citando a necessidade de "virar a chave do crescimento e da prosperidade". A ideia de usar os recursos das privatizações não para "pagar as contas de Brasília", mas sim para "construir o futuro do Brasil", com foco em estradas, ferrovias, hidrovias e portos, é um ponto central de sua plataforma. Essa visão de um país que "produz como um gigante, mas ainda transporta a sua riqueza como um país atrasado" busca ressoar com quem sente o peso da logística precária no dia a dia, seja no custo de transporte de alimentos ou na competitividade das empresas.

Esse tipo de discurso, que apela para a eficiência e a modernização do Estado, tem um apelo considerável em momentos de insatisfação com a economia. Contudo, a viabilidade e o impacto real de privatizar empresas como Petrobras e Banco do Brasil são debates complexos, que envolvem não apenas a política econômica, mas também a soberania nacional e o acesso a serviços essenciais para a população. A promessa de Zema, portanto, é um convite a um debate mais amplo sobre o papel do Estado na economia, e não apenas um plano de governo.

Brasil e EUA: A Lei da Reciprocidade e o risco de guerra comercial

Enquanto os holofotes eleitorais se acendem, o cenário internacional traz um desafio de outra natureza. A confirmação dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros exportados ao país acendeu um alerta em Brasília. O governo Lula, após classificar a medida americana como um "marco lastimável", anunciou que acionará a Lei da Reciprocidade Econômica. Essa legislação, aprovada em 2025, permite retaliações contra países que impõem barreiras comerciais ao Brasil. A questão é que, até o momento, as respostas concretas ainda não foram detalhadas, e a tarifa adicional entra em vigor na próxima quarta-feira (22).

A depender do que o governo definir, o Brasil pode entrar em um ciclo de elevação de tarifas, o que, em minha leitura, não beneficia ninguém a longo prazo. Quem acompanha o Congresso e as negociações comerciais sabe que esse tipo de impasse, embora pareça resolver um problema imediato, abre precedentes perigosos. Em 2019, vimos um movimento semelhante, ainda que em menor escala, com ameaças de tarifas americanas que, felizmente, foram contornadas com negociações intensas. O risco agora é que a "guerra comercial" ganhe contornos mais sérios, afetando setores importantes como o de etanol, máquinas agrícolas e papel, que não estão na lista de isentos. Isso pode se refletir no bolso do consumidor com o aumento de preços, ou na competitividade de empresas brasileiras que dependem desses mercados para crescer.

Análise: O que está em jogo para o cidadão

As promessas de Zema, por mais audaciosas que pareçam, tocam em pontos sensíveis da política econômica brasileira. A ideia de privatizar gigantes para investir em infraestrutura pode, em tese, resolver gargalos históricos que encarecem a vida do cidadão e dificultam o desenvolvimento. No entanto, um processo de privatização mal conduzido pode gerar um efeito contrário, concentrando poder em poucas mãos e reduzindo a concorrência, o que, no fim, impacta diretamente nos preços e na qualidade dos serviços. O governo precisará garantir que qualquer processo de desestatização seja transparente e beneficie a sociedade como um todo, e não apenas investidores específicos. Lembro de debates acalorados em torno de privatizações passadas, onde a falta de clareza sobre o uso dos recursos gerou mais desconfiança do que otimismo.

Do outro lado, a escalada de tarifas entre Brasil e Estados Unidos pode ter consequências diretas na inflação e no emprego. Um aumento nos custos de importação de bens e insumos pode pressionar os preços de produtos que chegam ao consumidor final. Além disso, a incerteza gerada por disputas comerciais pode desestimular investimentos e, consequentemente, a criação de novas vagas de trabalho. A "reciprocidade" defendida pelo governo, embora pareça uma postura firme em defesa dos interesses nacionais, precisa ser cuidadosamente calibrada para evitar que o remédio se torne pior que a doença, impactando o cotidiano do brasileiro em aspectos como o custo de vida e a disponibilidade de certos produtos.

Acompanhamos desde o ano passado, com a aprovação da Lei da Reciprocidade, a expectativa de que ela pudesse ser utilizada em momentos de tensão comercial. Agora, a teoria ganha contornos práticos. O desafio para o governo Lula é encontrar um equilíbrio entre a defesa da soberania e a manutenção de relações comerciais saudáveis, que permitam o crescimento econômico do país. A movimentação de Zema e a troca de farpas comerciais com os EUA são apenas alguns dos capítulos de um cenário político e econômico complexo que moldará o futuro próximo do Brasil.