A economia brasileira vem dando sinais de melhora nas últimas semanas, e um dos pontos mais positivos é a desaceleração da inflação. Essa combinação de fatores favoráveis ao bolso do consumidor abriu espaço para que o Banco Central considere cortes mais expressivos na taxa Selic, como aponta análise do HSBC. A expectativa é de uma redução já na próxima reunião do Copom, em agosto.

O que está por trás da queda da inflação

Diversos elementos têm contribuído para a atual trajetória descendente do IPCA, o índice oficial de inflação. A começar pela melhora no câmbio, que tem tornado as importações mais baratas e, consequentemente, pressionado menos os preços internos. Paralelamente, a acomodação nos preços do petróleo no mercado internacional e a desaceleração nos custos dos alimentos – um alívio para o orçamento familiar – também jogam a favor. O IPCA de junho, por exemplo, já mostrou uma desaceleração mais acentuada nos alimentos e núcleos de inflação, que excluem itens mais voláteis, apresentaram queda, indicando uma tendência de preços mais benigna.

Na minha leitura, a conjuntura atual demonstra que o Brasil está se beneficiando de uma combinação de políticas econômicas bem calibradas e um cenário externo favorável. Vimos algo parecido em 2020, quando uma combinação de câmbio favorável e a queda em commodities também ajudaram a trazer um fôlego para a inflação. A diferença agora é a consolidação desses movimentos.

Fatores externos e a política doméstica em destaque

Os ventos favoráveis não vêm apenas de dentro de casa. O dólar mais fraco, que impacta diretamente o custo de produtos importados e insumos para a indústria, é um aliado importante. Além disso, a queda nos preços do petróleo reduz a pressão sobre os custos de transporte e energia, que, no Brasil, têm um peso considerável na cesta de consumo. O impacto do El Niño, por enquanto, tem sido limitado em termos de pressão inflacionária sobre alimentos, diferente do que se temia.

Enquanto isso, o dólar, embora tenha se beneficiado dessa melhora externa e da perspectiva de juros menores, tem mantido uma certa estabilidade ante o real. A política doméstica e as movimentações tarifárias dos Estados Unidos têm sido observadas de perto pelos investidores, que buscam um norte mais claro antes de grandes apostas. Essa cautela, por um lado, evita movimentos bruscos na moeda, mas, por outro, mantém um fio de atenção no radar.

O que significa para o seu bolso e para a economia corporativa

A perspectiva de juros mais baixos é, sem dúvida, uma boa notícia. Para o consumidor, isso tende a se traduzir em crédito mais barato para financiamentos e empréstimos, além de estimular o consumo. Cartões de crédito com taxas menores e a possibilidade de renegociar dívidas podem aliviar o orçamento. Para as empresas, a redução da Selic diminui o custo do capital, tornando o investimento mais atrativo. A expectativa é de um ambiente mais propício para a expansão dos negócios e, consequentemente, para a geração de empregos.

No universo corporativo, essa perspectiva mais otimista já começa a ser sentida. O Nubank, por exemplo, anunciou a criação do cargo de CEO para a América Latina, com Livia Chanes assumindo a nova função e acumulando a liderança da operação brasileira. Essa movimentação demonstra a confiança do banco digital no potencial de crescimento da região, especialmente após obter autorização para operar como banco no México. A expansão do Nubank na América Latina é um indicador do apetite por negócios em mercados emergentes, e a redução da Selic pode ser um catalisador adicional para esse tipo de movimento.

Investimentos em infraestrutura e a burocracia

A situação não é completamente positiva, no entanto. Um exemplo de como a burocracia e a falta de planejamento podem travar o desenvolvimento é o caso da Ferrovia Transnordestina. O Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que o governo retomou um trecho da obra sem base técnica atualizada, o que resultou na proibição do início da execução das obras até que a questão seja resolvida. Embora a restrição não signifique uma paralisação completa, esse tipo de entrave técnico e administrativo prejudica a eficiência dos gastos públicos e a efetiva entrega de projetos de infraestrutura que poderiam impulsionar a economia e gerar empregos no longo prazo. Quem acompanha o setor de logística sabe que a lentidão nesses processos é um gargalo crônico.

A redução da Selic, portanto, é um passo importante e positivo. Contudo, é fundamental que o ambiente de negócios continue a ser incentivado, com menos barreiras regulatórias e mais planejamento. Se a inflação continuar sob controle e os juros caírem, podemos esperar um segundo semestre mais animador para a economia brasileira, com mais fôlego para consumidores e empresas.