A volta às compras no mercado pode estar um pouco mais salgada para você. Se em março a conta já apertou, abril veio com a mesma receita: a cesta básica subiu em todas as 27 capitais do Brasil pelo segundo mês seguido. Para quem mora em São Paulo, o dilema agora é como fazer caber R$ 906,14 em gastos essenciais. Em Cuiabá, a situação não é menos preocupante, com o custo chegando a R$ 880,06.

Os dados do Dieese mostram que, apesar de algumas capitais do Norte e Nordeste ainda terem custos mais baixos, a pressão sobre o bolso do brasileiro é generalizada. Em algumas cidades, como Porto Velho e Fortaleza, o aumento mensal ultrapassou os 5%. Olhando para o ano passado, 18 capitais viram o preço da cesta subir, o que significa que aquele almoço de domingo em família ou o lanche das crianças para a escola pode ter ficado mais caro do que há 12 meses.

Pequenas empresas na corda bamba

Enquanto a gente tenta driblar os preços no supermercado, o cenário para quem empreende, especialmente em pequena escala, não é nada animador. O primeiro trimestre de 2026 marcou o pior desempenho da pequena indústria desde o início da pandemia de Covid-19. O índice que mede o desempenho dessas empresas caiu, ficando abaixo da média histórica. É como se a produção dessas empresas estivesse travada.

E a confiança do empresário? Essa também está em queda livre há 17 meses. Imagine você ter planejado um projeto importante e, de repente, descobrir que ele não poderá sair do papel. Para quem tem um pequeno negócio, essa incerteza sobre o futuro impede de arriscar e investir. O resultado é um cenário de deterioração financeira, com o indicador atingindo o pior patamar desde o começo de 2021.

Inflação persistente e juros em alta

Esses sinais preocupantes vêm em um contexto onde a inflação no Brasil não dá trégua. O Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, indica que as projeções para a inflação em 2026 voltaram a subir e a expectativa é de que a taxa Selic, o principal indicador de juros do país, feche 2027 em 11,25%. Isso significa que o crédito tende a ficar mais caro, e investimentos com renda fixa podem se tornar mais atraentes, mas o acesso ao dinheiro para consumir ou investir em negócios se torna mais restrito.

O IPC-S semanal, que mede a variação de preços de forma mais rápida, embora tenha desacelerado em algumas capitais na primeira quinzena de maio, ainda mostra uma alta considerável. O Rio de Janeiro e Salvador, por exemplo, viram a desaceleração em seus índices, mas o custo de vida segue pressionado. Essa oscilação de preços dificulta o planejamento financeiro de qualquer família.

O legado de Powell e a economia global

Lá fora, o cenário também não é de calmaria. Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (o banco central americano), se despede do cargo, mas seu legado está sendo debatido. Especialistas apontam que ele pode ser lembrado mais pela sua postura política em defender a independência do Fed contra pressões de Donald Trump do que pelos resultados efetivos no controle da inflação durante seu mandato. Uma inflação alta e persistente nos Estados Unidos pode reverberar no Brasil, influenciando decisões sobre juros e o fluxo de capitais, o que, por tabela, afeta a nossa economia brasileira.

Para o brasileiro comum, isso se traduz em um poder de compra menor. Quando os preços sobem sem parar, o dinheiro que entra na conta rende menos. É como se o seu salário estivesse diminuindo sem que o número dele na folha de pagamento mudasse. A combinação de inflação alta, juros elevados e um setor industrial pequeno em dificuldades cria um cenário que exige atenção redobrada para o bolso e para o futuro do país.