O apito final está próximo para a Copa do Mundo, e com ele, uma sensação palpável de que as partidas deste ano foram, no mínimo, mais dinâmicas. Se você, assim como eu, acompanhou os jogos, deve ter notado a diferença: menos interrupções, mais bola rolando. Essa agilidade não é por acaso, mas sim o resultado de regras implementadas pela FIFA para combater a temida "cera", aquela tática de esticar o tempo de jogo que frustra torcedores e, acreditem, afeta mais do que a gente imagina.

Em 12 anos cobrindo a economia, já vi muitos setores se adaptarem a novas dinâmicas. E o esporte, especialmente um evento global como a Copa, não é diferente. A busca por um jogo mais rápido, que diminui o tempo em que a bola fica parada e as lesões simuladas, tem reflexos diretos que vão muito além do placar final. Para nós, brasileiros, isso se traduz em um cenário que afeta desde o consumo de artigos esportivos até a forma como empresas investem no universo do futebol.

O Fim da Cera e a Nova Realidade das Partidas

Arsène Wenger, à frente do Grupo de Estudos Técnicos da Fifa, apresentou dados que comprovam a eficácia das mudanças. Sabe aquela demora para o goleiro bater a meta, que antes podia ultrapassar os 30 segundos em 25% das vezes na Copa de 2022? Nesta edição, esse percentual caiu para 12%. O mesmo vale para o tempo de atendimento médico em campo: as intervenções caíram de uma média de 2,3 por partida para 1,6. O objetivo, segundo Wenger, é diminuir a frustração de "alguém cair em campo para trapacear".

Na minha leitura, essas mudanças são um reflexo claro da busca por otimizar o tempo útil de jogo, algo que o público moderno, com sua rotina cada vez mais acelerada, valoriza. Não é a primeira vez que vemos federações tentando acelerar o ritmo em esportes – lembrem-se de algumas tentativas passadas no tênis ou no basquete. O que acontece agora no futebol, no entanto, parece ter uma aceitação maior por parte dos atletas e, consequentemente, dos torcedores.

Impacto no Consumo e na Economia Esportiva

Mas qual o impacto disso para a economia? Pensemos no consumo. Um jogo mais dinâmico, com menos pausas longas, tende a manter o espectador mais engajado. Isso pode levar a um aumento no consumo de alimentos e bebidas durante as partidas, seja em casa, em bares ou em eventos organizados. Se o torcedor se sente mais recompensado pelo tempo investido assistindo, a probabilidade de ele repetir a dose e, por consequência, consumir mais, aumenta. Acompanhamos esse movimento desde o início da Copa e a tendência é que essa maior fluidez estimule, ainda que sutilmente, a busca por experiências de consumo associadas ao futebol.

Para a economia esportiva, o cenário é ainda mais promissor. Empresas que investem em patrocínios e publicidade dentro do universo futebolístico se beneficiam de uma exposição mais consistente. Um jogo que prende a atenção por mais tempo significa que os anúncios exibidos durante a transmissão têm maior probabilidade de serem vistos e, quem sabe, de gerarem algum interesse. Em um mercado saturado, qualquer vantagem em termos de engajamento é ouro.

A própria indústria de artigos esportivos pode se beneficiar indiretamente. Um futebol que celebra o jogo em si, e não as paralisações, pode incentivar a prática esportiva. Quem sabe, vemos mais jovens motivados a correr atrás da bola em um campo, inspirados pela velocidade e pela emoção vistas na televisão. É um ciclo que, na minha avaliação, tende a retroalimentar o setor, desde os grandes clubes até as lojas de bairro que vendem chuteiras e camisas.

O Desafio da Fluidez em um Mundo Tecnológico

Por outro lado, a busca por essa perfeição técnica e fluidez levanta debates interessantes. O filósofo Pedro Duarte, em sua coluna na Folha de S.Paulo, aponta que o VAR, por exemplo, ao substituir a interpretação humana por critérios técnicos, ameaça a dimensão poética e imprevisível do futebol. Ele cita um lance na Copa onde um gol foi anulado após revisão, mudando drasticamente o curso de uma partida. Para alguns, essa intervenção tecnológica garante a justiça; para outros, como Duarte, pode quebrar a "realidade humana" do esporte.

Em minha experiência cobrindo a economia, vejo um paralelo aqui: a busca incessante pela eficiência e pela tecnologia, muitas vezes, nos faz questionar o que se perde no caminho. No caso do futebol, é o equilíbrio entre a regra que garante um jogo limpo e a magia de um lance inesperado, de uma decisão arbitral que, para o bem ou para o mal, faz parte da narrativa do esporte. O que a Fifa tem feito, com as regras contra a cera, parece buscar um ponto de conciliação, mantendo a emoção sem abrir mão da justiça.

Lembro-me de um período, lá por 2019, quando a discussão sobre a tecnologia no futebol era ainda mais acirrada, com debates sobre o impedimento milimétrico e a sua aplicação. O que observo agora é uma tentativa de refinar essas regras, tornando o impacto da tecnologia menos disruptivo e mais integrado ao fluxo natural do jogo. A expectativa é que essas mudanças, se bem aplicadas e compreendidas, consolidem um futebol mais atraente e, consequentemente, com maior potencial econômico a longo prazo.

Cenário Internacional e Perspectivas para o Futuro

Internacionalmente, o impacto dessas regras é sentido não apenas pelos torcedores, mas também pelas ligas e federações que buscam replicar o sucesso da Copa. A economia esportiva global é um mercado gigantesco, e qualquer inovação que aumente o apelo do esporte tem potencial de gerar bilhões em receitas, desde direitos de transmissão até licenciamento de produtos. Acredito que essa tendência de jogos mais rápidos e dinâmicos veio para ficar, influenciando até mesmo ligas nacionais em seus calendários e regulamentos.

Para o consumidor brasileiro, o reflexo mais imediato será a experiência de assistir a partidas mais emocionantes e com menos interrupções. Se essa experiência se consolidar, podemos esperar um aumento no interesse por produtos e serviços ligados ao futebol, desde ingressos para estádios, passando por pacotes de TV a cabo, até o comércio de artigos esportivos. É um ciclo virtuoso que, se bem nutrido, fortalece toda a cadeia produtiva do esporte.

Olhando para o futuro, a pergunta que fica é: até onde podemos ir na otimização do tempo em jogos? A busca por um esporte perfeito é constante, mas é fundamental que o apelo humano e a imprevisibilidade, que tanto amamos, continuem sendo o coração do espetáculo. A economia esportiva prospera com a paixão, e a velocidade por si só não garante a emoção. O desafio é manter o jogo envolvente, justo e, acima de tudo, humano.