Sexta-feira, e o termômetro da economia brasileira aponta para uma mistura de temperaturas. Enquanto a gente sente o consumo acelerar e o sonho da casa própria ficar um pouco mais perto, a ameaça da inflação ganha força com um velho conhecido: o El Niño. Vamos desvendar o que está por trás desses movimentos e como eles se refletem na sua mesa e no seu planejamento.

Consumo Aquece e Crédito Imobiliário Descola

Se você sentiu o comércio mais movimentado ou gastou um pouco mais no supermercado em março, não foi impressão. Os números da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) mostram que o consumo nos lares brasileiros deu um salto de 3,2% em março, na comparação com o ano passado. Em relação a fevereiro, a alta foi ainda maior, de 6,21%, empurrando o primeiro trimestre para um crescimento acumulado de 1,92%. É como se a carteira do brasileiro tivesse ganhado um respiro, impulsionada por fatores como a liberação do Bolsa Família, PIS/Pasep, restituições do Imposto de Renda e pagamentos do INSS. Essa injeção de dinheiro, somada à antecipação das compras de Páscoa, fez a roda da economia doméstica girar mais rápido.

E não é só na despensa que as coisas andam animadas. O mercado imobiliário também vive um momento de euforia. Segundo a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), o crédito para a compra da casa própria atingiu impressionantes R$ 18,5 bilhões em março. Isso representa um aumento de 56,9% em relação a fevereiro e um avanço de 53,9% na comparação com março de 2025. O desempenho é o quarto melhor resultado mensal na história e permitiu que 54,6 mil imóveis fossem financiados. A Caixa Econômica Federal tem sido uma das principais forças por trás desse movimento, facilitando o acesso ao crédito para muitos brasileiros. Para quem sonha em comprar um imóvel, essa expansão do crédito pode significar mais opções e condições um pouco mais flexíveis.

El Niño e o Fantasma da Inflação

Mas nem tudo são flores no cenário econômico. Enquanto o consumo e o crédito ganham fôlego, um fator climático pode trazer dores de cabeça para o bolso de todos nós: o El Niño. Este fenômeno, que já estamos acompanhando de perto, se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e, em resumo, bagunça o clima pelo Brasil, alterando o regime de chuvas e as temperaturas.

Economistas já estão revisando para cima suas projeções de inflação para 2026, com o El Niño se somando às pressões externas, como o conflito no Oriente Médio, que impacta os preços de combustíveis e fertilizantes. Segundo especialistas da Climatempo, os efeitos do El Niño devem começar a ser sentidos já a partir de maio e se intensificarão ao longo do ano. A expectativa da Nottus, consultoria meteorológica, é que o pico das chuvas ocorra em outubro. Isso significa temporais mais severos no Sul do país e ondas de calor prolongadas em grande parte do interior, o que tende a desorganizar a produção agrícola e elevar os preços dos alimentos que chegam à sua mesa.

Imagine só: uma safra que seria farta sofre com excesso de chuva em um lugar e seca em outro. O resultado? Menos oferta e preços mais salgados no supermercado e na feira. O indicador Abrasmercado, que acompanha a variação de preços de 35 produtos de largo consumo, já registrou alta de 2,20% em março, a mais intensa do primeiro trimestre. É um sinal de alerta para a inflação que vem por aí.

Fluxo Cambial: Entre Entradas e Saídas

Outro ponto que merece nossa atenção é o fluxo cambial do país. Segundo apuração do InfoMoney Economia, que reportou dados preliminares do Banco Central, o fluxo cambial total em 2026 está positivo em US$ 907 milhões até o dia 17 de abril. À primeira vista, parece uma boa notícia, indicando que mais dólares entraram do que saíram do país.

No entanto, quando olhamos os detalhes, a história é um pouco mais complexa. O saldo positivo se deve quase que exclusivamente ao setor comercial, que registra um superávit de US$ 9,853 bilhões no ano – ou seja, vendemos mais produtos para o exterior do que compramos. Já o canal financeiro, que inclui investimentos diretos, em carteira e remessas de lucros e pagamentos de juros, mostra uma saída líquida de US$ 8,947 bilhões. É como se a balança comercial estivesse segurando a barra para o restante da economia.

E o cenário de curto prazo mostra mais desafios: O Brasil registrou fluxo cambial negativo de US$ 3,20 bilhões em abril até dia 17. Em março, a saída líquida foi ainda maior, de US$ 6,350 bilhões. Essa saída de dólares, se persistir, pode pressionar a cotação da moeda americana aqui dentro, tornando produtos importados mais caros e, por tabela, impactando a inflação.

O que isso significa para o seu bolso?

O cenário macroeconômico brasileiro em 24 de abril de 2026 é um misto de esperança e cautela. Por um lado, a maior disponibilidade de renda e o acesso facilitado ao crédito imobiliário mostram que o poder de compra do brasileiro está crescendo e o mercado de moradia está aquecido. Isso é bom para o emprego e para a confiança geral.

Por outro lado, o El Niño é uma ameaça real para os preços dos alimentos e, consequentemente, para o custo de vida. A alta nos preços de itens básicos pode corroer parte desse ganho de renda que o brasileiro está sentindo. O fluxo cambial, por sua vez, exige atenção. A saída de capital financeiro pode ser um sinal de que investidores estão menos otimistas com o Brasil ou encontrando oportunidades mais atraentes em outros mercados, e isso, como vimos, pode afetar o preço do dólar.

Em suma, a economia brasileira está em movimento, com pontos de brilho e algumas nuvens no horizonte. Fique de olho, porque cada um desses indicadores tem um impacto direto no seu dia a dia.