A sexta-feira (24) amanheceu com mais uma notícia que mexe com os nossos bolsos e o futuro do comércio brasileiro. Os Estados Unidos anunciaram uma nova sobretaxa de 12,5% sobre milhares de produtos importados do Brasil. Para alguns itens, essa nova tarifa se soma a uma anterior de 25%, elevando a tributação total para um saltado 37,5%. Parece muita coisa? E é. A medida, que entra em vigor imediatamente, levanta preocupações sobre a competitividade dos nossos produtos lá fora e pode, sim, reverberar aqui dentro.

A decisão americana é justificada sob a alegação de falhas no combate ao trabalho forçado em países parceiros. Essa é uma carta que o governo Trump tem jogado com frequência nos últimos tempos, e o Brasil, infelizmente, virou um dos alvos. São cerca de 3 mil produtos brasileiros que agora enfrentam essa barreira mais alta para entrar no mercado americano, representando um volume de exportações de US$ 12,5 bilhões anuais. Para 85,3% dessas vendas, os efeitos serão cumulativos com a tarifa de 25% já existente, criando um cenário que a Amcham Brasil classifica como um dos níveis mais elevados aplicados pelos EUA a seus parceiros comerciais.

Produtos estratégicos e o risco da reciprocidade

Nem tudo são flores para os americanos, no entanto. A lista de produtos isentos dessa nova tarifa, divulgada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), inclui itens considerados essenciais para o comércio bilateral e para a própria indústria americana. Café, petróleo, gás natural, fertilizantes, madeira, suco de laranja e derivados de açaí, por exemplo, não sofrerão a sobretaxa de 12,5%. Essa estratégia visa, em parte, blindar setores que dependem desses insumos ou que representam uma parte considerável das importações americanas.

Em minha leitura, o governo americano tenta equilibrar a pressão política interna com a necessidade de manter a economia funcionando. Ao isentar commodities e insumos cruciais, busca-se evitar um impacto direto e imediato no custo de vida dos consumidores americanos e na produção industrial. É um jogo de xadrez em que cada peça tem um peso estratégico.

Mas o alerta da Amcham Brasil sobre o risco de reciprocidade é real. Quando um país impõe barreiras, é natural que o país afetado considere medidas semelhantes. Isso pode gerar um ciclo de retaliações que, no fim das contas, prejudica a todos. Quem acompanha o comércio internacional há algum tempo lembra que esses tipos de disputas tarifárias, se não contidas, podem se espalhar como uma bola de neve, impactando não só as exportações, mas também a disponibilidade e o preço de produtos importados que chegam até nós.

Impacto no seu dia a dia: o efeito cascata

Você deve estar se perguntando: "Mas Ana, como isso afeta a minha vida?". A resposta direta é: no bolso e nas opções de compra. Com o aumento das tarifas de exportação, empresas brasileiras podem ter sua margem de lucro reduzida ou serem forçadas a repassar esses custos. Isso pode significar produtos brasileiros mais caros nos Estados Unidos, e, por tabela, pode desestimular a produção nacional, afetando empregos e investimentos.

Por outro lado, a barreira de entrada para produtos brasileiros nos EUA pode abrir espaço para concorrentes de outros países que não sofreram a mesma tarifa. Se um produto brasileiro similar produzido em outro país se tornar mais vantajoso para o consumidor americano devido ao custo, a demanda pelo nosso produto tende a cair. Isso, em um cenário de instabilidade econômica global, pode comprometer a trajetória de retração do comércio bilateral, como alerta a Amcham.

Para a nossa economia, esse cenário representa mais um desafio. A queda nas exportações para um mercado tão importante como o americano pode pressionar nossa balança comercial e, consequentemente, afetar a cotação do dólar. Já vimos essa dinâmica se repetir em outros momentos: quando as exportações sofrem, o dólar tende a sentir o impacto, o que encarece produtos importados e pode, eventualmente, pressionar a inflação.

O fantasma do trabalho forçado e as tensões globais

A justificativa de combate ao trabalho forçado, embora legítima em sua essência, soa como uma ferramenta política nesse contexto. O governo americano utiliza a Seção 301 da Lei de Comércio para impor tarifas, o que tem sido uma constante nas relações comerciais recentes sob a administração Trump. A nossa apuração mostra que a pressão sobre o governo brasileiro para encontrar uma forma de reagir a essas tarifas é imensa. O governo federal, por sua vez, está imerso em conversas com os setores mais afetados para avaliar os próximos passos.

Além da questão das tarifas, as tensões no Oriente Médio também continuam no radar, especialmente após novos ataques a navios petroleiros no Mar Vermelho. Esse cenário geopolítico piora as preocupações sobre eventuais impactos nas cadeias logísticas e no mercado de petróleo. Embora os preços do petróleo estivessem em queda nesta sexta-feira, com o barril do Brent operando abaixo dos US$ 98, a volatilidade permanece. Essa instabilidade global, somada às tarifas americanas, cria um ambiente de incerteza que não é nada bom para a economia brasileira, que já lida com seus próprios desafios, como a necessidade de prorrogação de subsídios para o preço do combustível e a gestão da política monetária.

O que acontece lá fora, por mais distante que pareça, tem um jeito de chegar até nós. Seja no preço do supermercado, no custo para manter o carro na garagem ou nas oportunidades de emprego. É fundamental acompanhar essas movimentações para entender as reais consequências no nosso cotidiano.