A quarta-feira no Rio Grande do Sul começou com um alerta que ecoa por todo o país: rios voltaram a atingir cotas de inundação, forçando a retirada de famílias de suas casas. Encantado, Lajeado, Roca Sales e São Sebastião do Caí são alguns dos municípios onde o Rio Taquari e o Rio Caí ultrapassaram os níveis de segurança. Para nós, que acompanhamos a economia dia a dia, essa notícia não é apenas sobre alagamentos, mas sobre o potencial impacto na nossa despensa.

Quem acompanha o setor agrícola sabe que o Rio Grande do Sul é um gigante na produção de grãos e outros insumos essenciais para a nossa alimentação. A infraestrutura de transporte, tão vital para que esses produtos cheguem aos centros consumidores, também sofre com as pontes danificadas e estradas bloqueadas. Na minha leitura, o receio de desabastecimento e a consequente alta nos preços já começam a se desenhar no horizonte.

Impacto direto na produção agrícola

As imagens de cidades alagadas no Rio Grande do Sul nos mostram um cenário desolador. Para além das perdas humanas e materiais, a força da natureza impõe um severo golpe na base da cadeia produtiva de muitos alimentos. A lavoura de soja e milho, por exemplo, que está em diferentes fases de desenvolvimento, pode ser gravemente prejudicada. A água em excesso pode apodrecer as raízes, dificultar a colheita ou até mesmo inviabilizar a safra em algumas regiões.

Quem acompanha o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) sabe que o grupo de “Alimentação e Bebidas” tem um peso significativo no orçamento das famílias, especialmente as de menor renda. Historicamente, em momentos de crise hídrica ou de excesso de chuvas em importantes polos produtores, o impacto nos preços é quase que imediato. É como tentar encher um balde furado: por mais que você coloque água (ou produtos), a perda é constante.

Logística e custos de transporte: um gargalo conhecido

As inundações no Rio Grande do Sul não afetam apenas as lavouras. A malha logística do estado, essencial para escoar a produção para o resto do Brasil, é frequentemente colocada à prova por eventos climáticos extremos. Estradas vicinais, pontes e até mesmo a operação de portos podem ser comprometidas. Lembro-me de situações semelhantes em 2020 e 2021, quando problemas logísticos, mesmo que de outra natureza, causaram aumentos expressivos em alimentos básicos, mostrando como o caminho que o alimento percorre é tão importante quanto sua produção.

Para o consumidor final, isso se traduz em um aumento no custo do frete, que acaba sendo repassado para o preço do produto. Se o escoamento da safra fica mais difícil e mais caro, é natural que os supermercados precisem ajustar seus preços para cobrir esses custos adicionais. É um efeito dominó que começa no campo e termina na feira ou no açougue.

O que esperar dos preços dos alimentos?

Acompanhamos o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) com alertas de grande perigo para acumulados de chuva, com volumes que podem superar 100 milímetros em 24 horas e chegar a 200 milímetros ao longo da semana. Essa instabilidade prolongada aumenta o risco de perdas na agricultura e de danos à infraestrutura.

Na minha leitura, a expectativa é de que a pressão sobre os preços dos alimentos venha, principalmente, de produtos como arroz, feijão, carnes (que dependem de ração), além de frutas e hortaliças produzidas na região. O impacto inicial pode ser sentido em alimentos que têm o RS como um importante fornecedor. A apuração do The Brazil News indica que, em outras ocasiões de fortes chuvas na região, o preço do arroz no varejo chegou a subir mais de 15% em poucas semanas.

É cedo para cravar um número exato, mas o cenário é de atenção. O governo e os órgãos de defesa civil estão atuando no resgate e na contenção dos danos, mas o impacto econômico na produção de alimentos é uma consequência que se desdobrará nas próximas semanas e meses. Para o brasileiro, que já sente no bolso o custo de vida elevado, a notícia reforça a necessidade de estar atento aos movimentos do mercado agrícola e às suas possíveis repercussões.

Comparativo histórico e lições aprendidas

Não é a primeira vez que enfrentamos adversidades climáticas que impactam a produção de alimentos no Brasil. Em ciclos anteriores, como no período de estiagem que afetou o Sul em 2021/2022 ou as chuvas intensas que atingiram outras regiões, vimos o efeito cascata sobre os preços. O padrão que se observa é que a combinação de problemas na produção com dificuldades logísticas é uma receita quase certa para encarecer o que vai para a mesa do consumidor.

O que a experiência me ensina é que a resiliência do agronegócio brasileiro é impressionante, mas ele não é imune aos eventos climáticos extremos. É fundamental que haja investimentos contínuos em infraestrutura, tecnologias de produção mais resistentes e sistemas de alerta e contingência mais eficientes. No fim das contas, isso se traduz em maior segurança alimentar e preços mais estáveis para todos nós.