O pregão desta sexta-feira (24) foi de poucas emoções para a bolsa brasileira, com o Ibovespa fechando no vermelho em meio a um cenário de aversão ao risco local. Enquanto o índice geral sentia o peso das incertezas, o setor de telecomunicações provou ser um refúgio de resistência, com ações de gigantes como Telefônica Brasil (VIVT3) e TIM (TIMS3) escapando da tendência negativa. O motivo? A iminente divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026.

Operadoras de Telefonia na Contramão da Bolsa

Por volta das 15h40, com o Ibovespa em queda de 1,35%, a Telefônica Brasil (VIVT3) registrava uma alta de 2,10%, negociada a R$ 35,43. Pouco atrás, a TIM (TIMS3) ganhava 2,40%, alcançando R$ 21,76. Essa performance, em um dia de fluxo reduzido e cautela generalizada, sinaliza a importância que o mercado atribui aos próximos números divulgados pelas empresas.

É compreensível a movimentação. O mercado financeiro, no fim das contas, é movido por expectativas e projeções. E quando se trata de balanços, especialmente de empresas que vinham mostrando uma trajetória de recuperação, os investidores tendem a se posicionar antecipadamente. Na minha leitura, quem já vinha monitorando a melhora nos indicadores operacionais dessas empresas aproveitou o dia de baixa geral para comprar mais vantajosamente, antes dos anúncios oficiais.

As duas operadoras apresentarão seus resultados consolidados do 2T26 na próxima segunda-feira, após o fechamento dos negócios. Analistas do Santander já sinalizaram expectativas de resultados "robustos", com ambas apresentando melhora nas tendências operacionais em relação ao primeiro trimestre. Felipe Cheng e Cesar Davanco, em relatório, destacaram que esperam um crescimento saudável na receita de serviços móveis (MSR), com a Vivo potencialmente superando a TIM nesse indicador. Além disso, a expectativa é de uma retomada na expansão da margem Ebitda, o que resultaria em um crescimento sólido de lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização.

ISA Energia Lidera Perdas com Follow-on

Em um contraste gritante com o setor de telecomunicações, a ISA Energia (ISAE4) registrou a maior queda do dia na B3. As ações da companhia de transmissão de energia despencaram mais de 6% após a precificação de sua oferta subsequente de ações, conhecida como follow-on. Por volta das 14h45, os papéis caíam 6,28%, negociados a R$ 26,71, perto da mínima do dia.

Essa operação, que visava levantar R$ 1,2 bilhão para o caixa da empresa, foi coordenada por um consórcio de bancos liderado pelo BTG Pactual. A precificação de R$ 27 por ação preferencial (ISAE4) representou um desconto de cerca de 5,26% em relação ao fechamento de quinta-feira, que foi de R$ 28,50. O Seu Dinheiro noticiou que a demanda pela oferta foi forte o suficiente para dobrar o seu tamanho inicial, mas o desconto oferecido, somado a um mercado de olho nos balanços e em outros fatores macroeconômicos, pesou sobre os papéis no curto prazo.

É uma situação que já vimos antes. Quando uma empresa realiza um follow-on, especialmente com um desconto que pode parecer atraente para novos entrantes, o preço das ações tende a sofrer no curto prazo. É o famoso processo de diluir um pouco o valor para atrair capital. Quem acompanhou operações semelhantes no setor elétrico em anos anteriores, como a de [analista de mercado que eu cobri em 2022] que também passou por uma oferta expressiva, sabe que a volatilidade após esses anúncios é comum. O investidor de longo prazo, contudo, precisa ponderar se o caixa levantado pela empresa será bem utilizado para gerar valor futuro.

Cenário Internacional e o Petróleo Calmo

Lá fora, o cenário era um pouco mais animador. As bolsas europeias fecharam em alta nesta sexta-feira (24), impulsionadas por resultados corporativos positivos e um fôlego renovado no setor de tecnologia. O índice pan-europeu Stoxx 600, por exemplo, encerrou o pregão com um avanço de 0,82%. Em Frankfurt, a SAP deu um show à parte, saltando quase 10% após anunciar um crescimento acima do esperado em seu backlog de nuvem.

Apesar das tensões geopolíticas no Oriente Médio, com os Estados Unidos respondendo a ataques no Irã, o preço do petróleo Brent operou abaixo dos US$ 100 o barril durante boa parte do pregão. Essa estabilidade na commodity, que historicamente pode inflamar a inflação e gerar receios econômicos, contribuiu para o desempenho positivo dos mercados europeus. É um lembrete de que, mesmo com as manchetes alarmantes, a dinâmica dos preços das commodities tem um papel crucial na serenidade dos mercados globais.

Para o investidor brasileiro, esse cenário internacional é um lembrete importante. Enquanto nossas atenções se voltam para os balanços e a política doméstica, o que acontece lá fora pode influenciar nosso mercado de diversas formas, seja pela atração de capital estrangeiro, seja pela precificação de commodities que afetam nossas empresas exportadoras. A aversão ao risco local, porém, parece ter falado mais alto no dia de hoje, tornando a busca por ativos defensivos e empresas com fundamentos sólidos ainda mais relevante.