A chegada de um possível "Super" El Niño entre o segundo semestre deste ano e o início de 2027 já está no radar dos investidores, e as movimentações no mercado financeiro nesta terça-feira (30) refletem essa apreensão. O fenômeno climático, que antes era uma preocupação restrita ao agronegócio, agora desponta como um risco macroeconômico para toda a América Latina, com potenciais impactos na inflação, câmbio e, claro, nos seus investimentos.
O Itaú BBA aponta uma probabilidade de 63% de o fenômeno atingir intensidade "muito forte", algo que, na minha leitura, já seria o suficiente para acionar um alerta maior. O El Niño tem o poder de alterar padrões globais de temperatura e umidade, o que pode se traduzir em secas severas em algumas regiões, tempestades intensas em outras e ondas de calor persistentes. Para o Brasil, isso se reflete diretamente em desafios para o setor elétrico e potencial volatilidade nas commodities.
No mercado de energia, o enfraquecimento dos ventos alísios, uma característica típica do El Niño, tende a diminuir a intensidade e a previsibilidade dos ventos no Nordeste. Essa é uma má notícia, considerando que a região concentra a maior parte dos parques eólicos brasileiros. Quem acompanha o setor elétrico há um tempo sabe que essa dependência da eólica no Nordeste é um ponto nevrálgico. Em 2020, vimos algo parecido quando uma seca prolongada afetou o nível dos reservatórios, obrigando o governo a acionar termelétricas, o que elevou os custos. Agora, a ameaça vem do lado da geração eólica.
Além disso, o fenômeno tende a elevar o consumo de eletricidade, especialmente durante a primavera e o início do verão, impulsionado pelas temperaturas mais altas. Esse cenário duplo – menor geração eólica e maior demanda – pode pressionar os preços da energia e gerar vencedores e perdedores dentro do setor elétrico. Empresas com forte exposição à geração hídrica ou com contratos de longo prazo mais protegidos podem ter uma atuação mais resiliente.
O impacto do El Niño não se limita ao setor elétrico. A agricultura, como de costume, será afetada. Mudanças no regime de chuvas podem prejudicar safras em algumas regiões e beneficiar outras. Esse choque climático tem potencial para reprecificar alimentos, o que, em um cenário de inflação global já sensível e juros elevados, é um fator que os bancos centrais do mundo inteiro estarão observando de perto. Não é à toa que o tema ganhou relevância para além do agronegócio, tornando-se um risco macroeconômico para a região.
Na minha leitura, o sinal mais forte aqui é que o El Niño chega em um momento delicado. O mundo ainda lida com cadeias de suprimentos reorganizadas, fertilizantes mais caros e uma baixa tolerância dos bancos centrais a novos choques de preços. Esse cenário pode exacerbar as pressões inflacionárias e, consequentemente, influenciar as decisões sobre política monetária. Para o investidor, isso significa monitorar de perto os dados de inflação e as sinalizações dos bancos centrais, tanto no Brasil quanto no exterior.
Em nossa cobertura editorial, acompanhamos a movimentação do dólar de perto. Nos últimos meses, vimos a moeda oscilar bastante em função de fatores geopolíticos, como a trégua no Oriente Médio, que chegou a fazer o dólar cair para patamares próximos a R$ 4,80. Agora, com o El Niño adicionando uma camada de incerteza macroeconômica, é provável que a volatilidade da moeda retorne, especialmente se os impactos climáticos se confirmarem e pressionarem a inflação e os juros.
Para quem investe, é fundamental entender que o El Niño não é apenas uma notícia sobre o clima. Ele representa um fator de risco que pode afetar diretamente os resultados de empresas listadas na bolsa, a performance de commodities e, por extensão, o seu bolso. A diversificação do portfólio torna-se ainda mais crucial em cenários como este, onde eventos climáticos globais podem ter repercussões locais significativas.
Disclaimer: Este artigo tem fins informativos e não constitui recomendação de investimento. Cada investidor deve realizar sua própria análise e consultar um profissional qualificado antes de tomar qualquer decisão.