O mercado financeiro, que se despediu das negociações nesta terça-feira (02/06/2026), carrega consigo um debate aceso sobre os efeitos da aguardada reforma tributária. E, no radar dos analistas, a Ambev (ABEV3) aparece como uma das empresas que pode sentir o aperto de uma nova taxação: o chamado Imposto Seletivo (IS) sobre bebidas alcoólicas. A preocupação, que parece ainda não ter sido totalmente digerida pelo mercado, foi levantada pelo Bank of America (BofA).

A matéria-prima da Ambev (ABEV3), no caso, não é apenas o malte e o lúpulo, mas também a legislação tributária. Segundo um relatório divulgado pelo BofA na véspera, embora a transição para o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) tenha o potencial de simplificar e até beneficiar a operação brasileira da cervejaria, a contrapartida viria na forma do IS. Esse novo imposto, que visa desestimular o consumo de produtos considerados prejudiciais à saúde e ao meio ambiente, incidiria diretamente sobre as bebidas alcoólicas, um dos pilares do portfólio da Ambev.

Um Imposto Seletivo com Sabor Amargo?

Os analistas do Bank of America mantiveram uma recomendação neutra para as ações da Ambev, com um preço-alvo de R$ 16, o que, curiosamente, representa um potencial de desvalorização de 2,75% em relação ao fechamento de hoje, R$ 16,45. A alta modesta de 0,12% das ações no pregão de hoje não parece ter sido suficiente para afastar a sombra dessa análise.

O ponto central da discussão é que o ganho que a Ambev poderia ter com a unificação de impostos via IVA pode ser completamente engolido pelo novo Imposto Seletivo. Em outras palavras, o que se ganha de um lado, pode se perder (e até mais) do outro. A conta final pode não fechar em favor da empresa. Isso, claro, impacta diretamente as projeções de crescimento e a rentabilidade futura da companhia.

O cenário que o BofA desenha é de que esses riscos tributários ainda não estão plenamente precificados nas expectativas do mercado para 2027. Isso significa que, se essa nova taxação se concretizar com a força que os analistas preveem, o mercado pode ter uma surpresa desagradável e ter que recalcular o valor justo das ações da empresa. Para o investidor que tem Ambev na carteira, é um sinal para ficar atento não apenas aos resultados operacionais da empresa, mas também ao desenrolar das discussões sobre a tributação.

O Que o Mercado Já Sabe e O Que Pode Vir

A regulamentação da reforma tributária sancionada recentemente pelo presidente Lula trouxe alguns vetos e modificações que ainda estão sendo interpretados. A criação do Imposto Seletivo é um dos pontos que mais geram dúvidas e expectativas sobre o seu impacto setorial. Para a Ambev, a combinação de um sistema de IVA mais eficiente com um IS sobre bebidas alcoólicas pode gerar um efeito líquido complexo.

É fundamental lembrar que a Ambev, como uma das maiores fabricantes de bebidas do Brasil, tem um poder de barganha considerável e uma estrutura de custos otimizada. No entanto, a natureza de um imposto seletivo é justamente tentar reduzir o consumo do produto taxado. Se a estratégia do governo for eficaz nesse sentido, a demanda por cervejas e outras bebidas alcoólicas pode, de fato, sofrer uma retração.

Para os investidores, esse é um exemplo claro de como um evento macroeconômico, como uma reforma tributária, pode ter um impacto setorial bem definido. Não se trata de um impacto que atinge todo o mercado de forma homogênea, mas sim de um evento que pode fortalecer alguns setores e enfraquecer outros. O desafio, agora, para quem investe em ações, é tentar antecipar essas movimentações e ajustar as estratégias de alocação para capturar as oportunidades e mitigar os riscos.

Enquanto a Ambev busca equilibrar suas operações em meio a um cenário regulatório em constante evolução, o mercado financeiro segue atento aos desdobramentos da reforma tributária. As ações da companhia, que fecharam o dia no campo positivo, agora carregam uma análise que sugere cautela devido a um imposto que pode impactar diretamente o consumo, como se o preço subisse para 'pesar no copo'.