A convenção nacional do PL, realizada em 25 de julho, buscou dar um gás na candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro para 2026, mas as estratégias adotadas levantaram mais dúvidas do que certezas sobre os rumos da campanha. Em vez de focar em propostas e no próprio candidato, os organizadores apostaram em dois elementos chamativos: a presença do presidente argentino Javier Milei e a projeção de uma versão em inteligência artificial de Jair Bolsonaro.

Palco para Polêmicas, Não para Propostas

A aparição de Javier Milei, conhecido por seu estilo polêmico e declarações inflamadas, serviu para atiçar a base mais fiel do bolsonarismo. Contudo, a escolha de um líder estrangeiro para palestrar em um evento nacional de campanha presidencial gera questionamentos sobre a identidade e os objetivos da própria chapa brasileira. A forma como o evento foi conduzido, com referências que remetem a um estilo de confronto, reforça a sensação de que o evento privilegiou o confronto e a reafirmação de bandeiras em detrimento de um diálogo sobre o futuro do Brasil.

O uso da inteligência artificial de Jair Bolsonaro, projetada para dar a entender que ele seria o protagonista caso o filho fosse eleito, foi outro ponto que gerou burburinho. Essa manobra, na minha leitura, evidencia uma dificuldade em construir uma narrativa própria e convincente para Flávio Bolsonaro, recorrendo a uma figura já conhecida e adorada pela sua base. Não é a primeira vez que vemos estratégias de campanha que se apoiam em figuras fortes do passado, mas o uso de IA para isso é uma novidade que, por ora, parece mais uma tentativa de gerar engajamento nas redes sociais do que uma estratégia sólida para conquistar novos eleitores ou convencer os indecisos.

Em momentos de definição eleitoral, o comum é ver os candidatos tentando moldar suas agendas para apresentar um plano de governo claro e dialogar com setores mais amplos da sociedade. O que se viu na convenção do PL, no entanto, foi uma reafirmação da estratégia de falar com o "público cativo", como apontam observadores da política. A dúvida que fica é: para quê? Em uma disputa que já se desenha apertada, como indicam as primeiras movimentações e pesquisas, esse foco no passado pode acabar afastando potenciais aliados e limitando o alcance da candidatura.

O Cenário Eleitoral se Movimenta em Minas e no Rio

Enquanto o cenário nacional para o PL se desenha com essas estratégias midiáticas, a disputa pelos governos estaduais mostra um quadro mais complexo e incerto, que pode acabar repercutindo na eleição presidencial. Em Minas Gerais, a mais recente pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta terça-feira (28) aponta o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) na liderança para o governo estadual. Cleitinho, no entanto, ainda não confirmou sua candidatura, e seu estado é visto como um ponto crucial na articulação da campanha de Flávio Bolsonaro, que aguarda uma decisão do senador. Essa indefinição em um estado tão importante demonstra como a disputa estadual pode ter um efeito cascata.

No Rio de Janeiro, a corrida para o Palácio Guanabara também ganhou um elemento de surpresa com a candidatura do ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos). Sua entrada na disputa afeta diretamente os planos de Eduardo Paes (PSD), que visava liquidar a eleição no primeiro turno. Garotinho tem apresentado intenções de voto tanto entre eleitores do presidente Lula, que apoiam Paes, quanto entre os bolsonaristas, público que o candidato do PL, Douglas Ruas, pretende atrair. A pesquisa Quaest mostra Paes na liderança com 38%, mas Garotinho e Ruas aparecem empatados com 10% cada, indicando uma disputa mais acirrada e a possibilidade de um segundo turno inesperado.

Essa dinâmica em estados importantes, que pode influenciar a distribuição de tempo de TV e o engajamento de bases eleitorais, é um dos fatores que torna a eleição de 2026 tão imprevisível. A apuração do The Brazil News mostra que o cenário para todos os lados ainda está em construção, com articulações intensas nos bastidores para formar alianças e definir candidaturas que possam ter força para disputar as vitórias em diferentes regiões do país.

Alianças em Construção: Zema e Barbosa

Em outra frente que pode impactar o tabuleiro presidencial, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), tem demonstrado interesse em formar uma chapa com o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa como vice. O presidente do DC, João Caldas, demonstrou aprovação à ideia, ressaltando a experiência de Zema em governar Minas Gerais. Essa articulação, se concretizada, traria um nome de peso e com forte apelo para compor uma chapa presidencial. A busca por nomes que possam atrair diferentes segmentos do eleitorado, como parece ser o caso de Barbosa, é uma estratégia comum em períodos eleitorais e reflete a necessidade de construir pontes e ampliar o apoio.

O que se observa nesse cenário eleitoral de 2026 é um jogo de xadrez complexo, onde as movimentações nos estados e as articulações de alianças podem ter um peso decisivo. A convenção do PL, com suas escolhas polêmicas, pode ter fortalecido sua base mais radical, mas a questão agora é se essa estratégia será suficiente para conquistar eleitores fora desse círculo. A campanha eleitoral, como sempre em Brasília, é feita de muitos movimentos e contra-movimentos, e o que vemos agora são apenas os primeiros lances de uma partida que promete ser longa e cheia de surpresas.