A paisagem política brasileira se move em direção às eleições presidenciais de 2026, e um padrão que conheço bem ao cobrir Brasília começa a se desenhar: a busca por votos em territórios incertos. Enquanto o TSE divulga o perfil do eleitorado — que, em 2026, se apresenta ligeiramente mais envelhecido, com menos jovens — as campanhas já miram aqueles que ainda não se decidiram. São cerca de 11% dos brasileiros que se dizem indecisos, votam em branco ou pretendem anular, segundo o último Datafolha. Essa fatia, somada aos chamados eleitores pendulares, que afirmam poder votar tanto no atual presidente quanto em seu principal opositor, representa um campo fértil para a disputa.

O Peso dos Votos Indecisos e a Estratégia do Governo

Essa dinâmica de eleitores que oscilam entre candidatos é um dos pontos centrais que prometem definir a corrida presidencial. Quem acompanha o Congresso há tempo sabe que o eleitorado nunca é um bloco homogêneo. Cada grupo demográfico, e especialmente aqueles que navegam entre as opções políticas, é fundamental. O governo Lula (PT) parece ter entendido isso ao promover uma reestruturação em sua equipe de campanha. A ideia é clara: reforçar as bases e a comunicação para capturar a atenção desses eleitores.

O remanejamento de peças-chave da "cozinha" do Palácio do Planalto para a coordenação da campanha, liderada por Edinho Silva, demonstra um movimento de consolidação. A entrada de nomes como Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, chefe de gabinete do presidente, na organização da agenda, e Tiago Cesar dos Santos, da Secom, reforçando a logística e comunicação, sinaliza um plano para otimizar a máquina de campanha. Em minha leitura, isso não é apenas uma mudança de pessoal, mas uma tentativa de trazer mais pragmatismo e eficiência para a reta final, espelhando, de certa forma, as estratégias que já vimos em campanhas anteriores, mas com um foco renovado na captação dos que estão fora do espectro político definido.

O Confronto com os EUA e a Pauta Comercial

Paralelamente à articulação interna, a política externa e suas repercussões econômicas ganham um papel de destaque. A estratégia eleitoral do presidente Lula parece ter encontrado um novo adversário público: o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. Ao convidar Rubio para “montar um comitê” para a campanha de Flávio Bolsonaro (PL), Lula desloca parte do embate para o cenário internacional e nomeia o que seria uma possível interferência estrangeira como um ponto de pauta. Não é a primeira vez que a relação Brasil-EUA se torna um tema eleitoral — em 2018, as tarifas já eram um ponto de discórdia — mas agora, a forma como o governo brasileiro lida com as tarifas impostas pelos EUA e as sanções contra autoridades pode ter um impacto direto no custo de vida do cidadão e nas expectativas econômicas do país.

A movimentação de Lula em atacar o tema de forma mais direta, ligando as tarifas americanas à agenda de Donald Trump e acusando opositores de submissão a uma nação estrangeira, é uma tática para capitalizar sobre o sentimento de soberania nacional. A expectativa é que essa narrativa ganhe força, buscando alertar sobre potenciais acordos comerciais desvantajosos e reações econômicas negativas caso a oposição vença. Para o eleitor comum, isso se traduz em preocupações com o preço de produtos importados, a estabilidade de empregos em setores exportadores e o fluxo de investimentos no Brasil.

Abstenção Crescente: Um Desafio para o TSE

Enquanto as campanhas se afiam e a geopolítica entra em jogo, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) enfrenta um desafio cada vez maior: a abstenção crescente. A estudante Ana Luiza Souza Ferreira, 20, que preferiu pagar multa a comparecer às urnas, é um exemplo desse fenômeno. "As promessas só surgem em época de eleição. Depois, nada acontece", desabafa. Esse descontentamento, alimentado pela percepção de ineficiência e promessas não cumpridas, faz com que o voto obrigatório se torne um peso para muitos, que optam por se ausentar.

Para as candidaturas, a abstenção crescente não é um dado a ser ignorado, mas sim calculado. Cada eleitor que deixa de votar representa uma perda potencial de voto. Na minha leitura, esse cenário aponta para a necessidade de as campanhas não apenas convencerem os indecisos, mas também reengajarem o eleitorado que, por algum motivo, se afastou do processo democrático. É um jogo de xadrez onde cada peça em jogo, mesmo as em posições menos estratégicas, pode influenciar o resultado final. A forma como o governo e a oposição abordarem as questões econômicas, a soberania nacional e, principalmente, as expectativas da população sobre os serviços públicos e a qualidade de vida, determinará quem sairá vitorioso dessa disputa.