O Brasil celebra um marco importante na segurança pública: atingiu a meta de redução de homicídios dolosos fixada para 2027. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23/07/2026), indica que o país registrou 15,1 mortes a cada 100 mil habitantes em 2025, um índice inferior ao objetivo de 16 mortes estabelecido pelo Plano Nacional de Segurança Pública. No entanto, essa notícia positiva vem acompanhada de alertas preocupantes que merecem atenção redobrada: feminicídios bateram recorde e as mortes cometidas por policiais apresentaram crescimento.

Um avanço com ressalvas na criminalidade

A queda nos homicídios dolosos, que são aqueles cometidos com a intenção de matar, é um alívio e demonstra que as políticas de segurança pública têm, em parte, surtido efeito. O número de mortes violentas intencionais (MVI) em geral também atingiu o menor patamar em mais de uma década. Esse resultado, segundo analistas ouvidos pelo The Brazil News, reflete um esforço coordenado em algumas frentes, como o combate ao tráfico de drogas em certas regiões e a melhoria na atuação de forças de segurança.

Para o cidadão comum, a sensação de insegurança pode diminuir com a redução desses crimes que mais impactam o cotidiano. No entanto, a estatística geral esconde realidades sombrias. A título de comparação, em 2019 vimos um cenário de queda em alguns indicadores, mas com picos alarmantes em outros crimes, o que nos mostra que a segurança pública é uma batalha contínua e multifacetada.

Feminicídios em alta: um grito por justiça

Em contramão à redução geral dos homicídios, o número de feminicídios no Brasil atingiu um patamar alarmante em 2025, com 1.571 casos registrados. Esse aumento de 4% em relação ao ano anterior é um indicativo claro de que a violência contra a mulher segue como um dos desafios mais urgentes para o país. A persistência desses crimes, mesmo com a diminuição de outras mortes violentas, sugere que as estratégias de prevenção e combate à violência doméstica ainda precisam de aprimoramento e, principalmente, de mais efetividade na aplicação da lei.

Essa escalada de feminicídios impacta diretamente milhares de famílias e joga luz sobre a necessidade de fortalecer redes de apoio às vítimas, campanhas de conscientização mais eficazes e um sistema judiciário mais ágil e sensível a essas questões. A sensação de impunidade, muitas vezes associada a esses crimes, precisa ser combatida com rigor.

Mortes em intervenção policial: o dilema entre a lei e a ordem

Outro dado preocupante divulgado pelo Anuário é o aumento de 5,4% nas mortes provocadas por policiais em serviço em 2025. Com 6.602 vítimas, este é o maior número absoluto registrado desde o início da série histórica em 2016. As chamadas mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP) agora representam 16,2% de todas as mortes violentas intencionais no país, a maior participação desde que o indicador começou a ser calculado.

Esse cenário levanta debates complexos sobre o uso da força por parte das polícias e a necessidade de treinamento adequado, controle externo e transparência. Acompanhamos essa articulação desde 2021 e a tendência de alta nas MDIPs, mesmo com a queda geral de homicídios, aponta para a necessidade de revisitar protocolos e investir em alternativas não letais. Na minha leitura, o aumento dessas mortes, em paralelo à redução de outros crimes, pode indicar uma desproporcionalidade no uso da força em certas operações, exigindo uma análise aprofundada e ações corretivas.

Adolescentes em conflito com a lei: uma queda em ritmo lento

O número de adolescentes cumprindo medidas socioeducativas em meio fechado no Brasil apresentou uma queda expressiva de 54% em nove anos, passando de 26.450 em 2016 para 12.203 em 2025. Contudo, o ritmo de redução tem diminuído. Após cair ano a ano desde 2016, o número de jovens em meio fechado estabilizou nos últimos dois levantamentos, com um leve aumento entre 2023 e 2025. Essa estagnação pode mascarar um crescimento real, especialmente se considerarmos que o estado de Minas Gerais não enviou seus dados de 2025.

O roubo e o tráfico de drogas continuam sendo os principais motivos para o internamento de adolescentes. Essa estabilidade, quando se esperava uma continuidade na queda, é um sinal de alerta. Quem acompanha o sistema socioeducativo sabe que a internação é a medida mais restritiva, e uma estabilização ou leve crescimento pode indicar dificuldades em programas de ressocialização ou um aumento na reincidência de atos infracionais graves.

As notícias sobre segurança pública no Brasil em 2025 apresentam um quadro complexo. A conquista na redução de homicídios dolosos é um ponto de virada positivo, mas não pode ofuscar os desafios urgentes em outras frentes. O combate aos feminicídios e a redução das mortes decorrentes de intervenção policial precisam ser prioridades máximas para garantir que a diminuição da criminalidade se traduza, de fato, em um país mais seguro e justo para todos.