São Paulo – O ano de 2025 foi de euforia para a riqueza global, e o Brasil não ficou de fora desse movimento. O patrimônio pessoal no mundo saltou 10,8% nominalmente, um ritmo mais acelerado desde 2017, graças, em grande parte, aos mercados financeiros e à valorização de ativos. Por aqui, a conta fechou com um número expressivo: 9.215 novos milionários em dólar, um crescimento de 2,4% em relação ao ano anterior, conforme aponta o relatório de riqueza global do banco UBS. Um número que, à primeira vista, soa como um sinal de prosperidade.
Contudo, para quem acompanha a economia brasileira há mais tempo, a história não é tão simples quanto parece. A canção popular que diz "o de cima sobe, e o de baixo, desce" nunca fez tanto sentido. Enquanto o topo da pirâmide financeira celebra a formação de novas fortunas, a base, que engloba a classe média, amarga uma realidade de estagnação e, em muitos casos, de empobrecimento. Desde 2020, a riqueza média real do brasileiro caiu 3,13%, segundo o mesmo relatório, pintando um quadro de profunda desigualdade social no país. O Brasil se mantém, infelizmente, como o quarto país mais desigual do mundo nesse ranking.
É um padrão que já vimos se repetir, embora em contextos diferentes. Lembro-me de quando o Copom, lá por 2022, iniciava um ciclo de aperto monetário agressivo. Na época, muitos comentavam sobre a resiliência da economia, mas esqueciam de olhar para o impacto direto no bolso do consumidor médio e para a concentração de renda que tais medidas, inevitavelmente, acentuavam. A dinâmica de concentração de riqueza é complexa, e o impulso dos mercados, embora real, muitas vezes mascara a fragilidade de uma parcela significativa da população.
Na minha leitura, o que o relatório do UBS evidencia é a dicotomia da economia brasileira. Temos setores e indivíduos que navegam com sucesso em um mar de oportunidades financeiras, impulsionados pela alta de commodities – algo que já cobrimos exaustivamente em matérias anteriores sobre empresas como a Vale, cujas perspectivas, apesar dos desafios, mostram resiliência em determinados ciclos – ou pela performance de ativos digitais e ações. Por outro lado, a massa da população sente o peso da inflação, do custo de vida elevado e da dificuldade em ascender socialmente. Essa é a clássica balança que pesa mais para um lado, e a falta de mobilidade social se torna um gargalo para o crescimento sustentável do país.
Para quem investe, esse cenário exige uma dose extra de cautela e estratégia. A formação de novos milionários, especialmente quando impulsionada pela valorização de ativos, pode ser um termômetro para setores específicos. No entanto, focar apenas nesses indicadores pode ser um erro. A análise precisa se aprofundar na capacidade de consumo da economia como um todo, na sustentabilidade do crescimento e, crucialmente, nas políticas públicas que visam mitigar a desigualdade. Afinal, um mercado com grande concentração de renda e uma classe média fragilizada tem seu potencial de expansão limitado no médio e longo prazo.
O desafio para o Brasil em 2026, e nos anos seguintes, é encontrar um caminho que promova um crescimento econômico mais inclusivo. Não se trata de frear o sucesso de quem prospera, mas de garantir que os frutos desse crescimento sejam distribuídos de forma mais equitativa. A busca por essa harmonia entre a geração de riqueza no topo e a melhoria das condições de vida da maioria é o que definirá a verdadeira força e sustentabilidade da economia brasileira. Ignorar a classe média estagnada e a persistente desigualdade social é como construir um arranha-céu sobre fundações instáveis – uma hora a estrutura pode ceder.
Disclaimer: Este artigo tem fins informativos e não constitui recomendação de investimento. Cada investidor deve realizar sua própria análise e consultar um profissional qualificado antes de tomar qualquer decisão.